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O mais antigo hino cristão fora da Bíblia

No vídeo acima, aquele que é o mais antigo hino cristão fora da Bíblia de que se tem registro. No Novo Testamento há algumas passagens que, suspeitam os estudiosos, teriam sido hinos ou trechos de hinos da Igreja Primitiva (Rm 11.33-36; Ef 1.3-14; Fp 2.6-11; Cl 1.15-20; 1Tm 3.16; 6.15-16; 2Tm 2.11-13); porém, se o foram, não são mais entoados pelo povo de Deus.

O Phos Hilaron (Φῶς Ἱλαρόν) (“Luz Jubilosa”) foi originalmente escrito em grego “koiné” (o mesmo grego do NT, falado na época dos apóstolos). Posteriormente traduzido para outros idiomas, é cantado até hoje nas igrejas ortodoxa grega, católica, anglicana/episcopal e luterana. Pelo que nos informa Basílio, o Grande, bispo de Cesaréia (329?-379), sua origem remontaria à época por volta de 150 d.C. — portanto, um hino já considerado tradicional no tempo daquele clérigo. Ainda, teria sido entoado nas catacumbas pelos primeiros cristãos, e aparentemente Justino (100 – 165 d.C.) cita sua letra no diálogo com Trifo. Segundo a tradição, o bispo e mártir Atenógenes, executado no reinado do imperador romano Diocleciano em 305 d.C., teria cantado o Phos Hilaron nas chamas da fogueira em que foi supliciado.

Apesar da origem helênica, o texto do hino é claramente judaico, pois remete ao calendário dos hebreus, em que o dia começa com o nascer e termina com  o por do sol. Uma análise competente do Phos Hilaron pode ser encontrada aqui.

A letra original grega:

Φῶς ἱλαρὸν ἁγίας δόξης ἀθανάτου Πατρός, οὐρανίου, ἁγίου, μάκαρος, Ἰησοῦ Χριστέ, ἐλθόντες ἐπὶ τὴν ἡλίου δύσιν, ἰδόντες φῶς ἐσπερινόν, ὑμνοῦμεν Πατέρα, Υἱόν, καὶ ἅγιον Πνεῦμα, Θεόν. Ἄξιόν σε ἐν πᾶσι καιροῖς ὑμνεῖσθαι φωναῖς αἰσίαις, Υἱὲ Θεοῦ, ζωὴν ὁ διδούς· διὸ ὁ κόσμος σὲ δοξάζει.
Φῶς ἱλαρὸν ἁγίας δόξης ἀθανάτου Πατρός, οὐρανίου, ἁγίου, μάκαρος, Ἰησοῦ Χριστέ, ἐλθόντες ἐπὶ τὴν ἡλίου δύσιν, ἰδόντες φῶς ἐσπερινόν, ὑμνοῦμεν Πατέρα, Υἱόν, καὶ ἅγιον Πνεῦμα, Θεόν. Ἄξιόν σε ἐν πᾶσι καιροῖς ὑμνεῖσθαι φωναῖς αἰσίαις, Υἱὲ Θεοῦ, ζωὴν ὁ διδούς· διὸ ὁ κόσμος σὲ δοξάζει.

A versão da Igreja Lusitana:

Avé, alegre luz, puro esplendor
da gloriosa face paternal,
Avé, Jesus, bendito Salvador,
Cristo ressuscitado e imortal.

No horizonte o sol já declinou,
brilham da noite as luzes cintilantes:
ao Pai, ao Filho, ao Espírito de amor
cantemos nossos hinos exultantes.

De santas vozes sobe a adoração
prestada a Ti, Jesus, Filho de Deus.
Inteira, canta glória a criação,
o universo, a terra, os novos céus.

Malgrado sua popularidade apenas em igrejas fortemente litúrgicas, achei interessante tratar dessa antiquíssima composição aqui no blog. Afinal, numa era em que até em denominações tradicionais predomina a contemporânea “gospel music”, de inspiração carismática, liberal e gnóstica, creio firmemente que a redescoberta de nossa herança hinológica cristã é um caminho para o resgate do autêntico culto a Deus em nossas comunidades.

Fontes consultadas: Smith Creek Music , Wikipedia, Episcopal Church

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A ira de Deus no Novo Testamento

A Queda de Babilônia

A Queda da Nova Babilônia (Apocalipse 18). Gravura de Gustav Doré.

Sim, o Novo Testamento fala da ira de Deus. Sabia disso, caro leitor?

Não, não é apenas no Antigo Testamento que lemos a respeito dela. Tome-se, por exemplo, Romanos 1.18ss; Efésios 2.3; Colossenses 3.6,7 etc. E mais: como se pode ver, aquela fazia mesmo parte da pregação do Evangelho pela Igreja Primitiva e seus apóstolos. Mais referências poderiam ser dadas, mas paro por aqui. Elas podem ser obtidas consultando-se uma concordância bíblica.

Os conceitos errôneos quanto a ira de Deus, um de Seus atributos, obviamente, têm sua origem no arminianismo/pelagianismo largamente disseminado entre os evangélicos da atualidade. Como corretamente observou o expositor da Bíblia A. W. Pink, “é triste ver tantos cristãos professos que parecem considerar a ira de Deus como uma coisa pela qual eles precisam pedir desculpas, ou, pelo menos, parece que gostariam que não existisse tal coisa. Conquanto alguns não fossem longe o bastante para admitir abertamente que a consideram uma mancha no caráter divino, contudo, estão longe de vê-la com bons olhos, não gostam de pensar nisso e dificilmente a ouvem mencionada sem que surja em seus corações um ressentimento contra essa idéia. Mesmo dentre os mais sóbrios em sua maneira de julgar, não poucos parecem imaginar que há na questão da ira de Deus uma severidade terrificante demais para propiciar um tema para consideração proveitosa. Outros dão abrigo ao erro de pensar que a ira de Deus não é coerente com a Sua bondade, e assim procuram bani-la dos seus pensamentos”. A íntegra do texto, cuja leitura, data venia, recomendo com insistência, pode ser obtida clicando-se aqui.

Tudo isso me veio à mente ao ler um artigo cujo autor se propôs a fazer uma síntese da mensagem evangélica (confira você mesmo aqui). Lemos aí que o ” “Evangelho em Síntese”, não fala da ira, justiça, severidade de deus (sic)”. E tome citações fora de contexto sobre o amor de Deus, com João 3.16 à testa, como não poderia deixar de ser, pois isso faz parte do que o evangelicalismo atual entende como exposição das Boas Novas.

A propósito, o leitor sabia que, no mesmo capítulo 3 do Evangelho de João, o próprio Senhor Jesus fala da ira de Deus? Isso mesmo: “Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece” (Jo 3.36). E de modo algum esse versículo contradiz o famosíssimo João 3.16, pois o “mundo” que “Deus amou de tal maneira” a ponto de dar Seu Filho Unigênito se refere, na verdade, a pessoas de todas as etnias, procedências, classes sociais etc. A análise do contexto nos ajuda a perceber isso claramente: o Mestre estava se dirigindo a um ilustre representante da seita dos fariseus, um grupo de judeus exclusivistas, os quais se julgavam privilegiados por Deus e os únicos justos da terra, desprezando os de fora de seu grupo e os reputando malditos (Jo 7.49). Tanto que se recusaram a se submeter ao batismo de João (Mt 3.1-12), como nosso Senhor denuncia a Nicodemos (vide vv. 5 e 11).

Portanto, a proclamação fiel do Evangelho aos pecadores jamais poderá negligenciar a grande verdade NEOTESTAMENTÁRIA de que eles estão debaixo da cólera do Altíssimo e que, portanto, é necessário que se arrependam de seus pecados (Lc 13.1-5; At 17.30,31), pois só assim conhecerão a graça salvadora de Deus (Tt 2.11-14; 3.3-7). Como o apóstolo Paulo, temos que pregar “todo o conselho de Deus” (At 20.27).


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