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As portas do inferno não prevaleceram… (2)

Igreja Batista Ressurreição, em Sebastopol (UCR)

Na foto acima, templo da Igreja Batista Ressurreição (Баптист церковь Воскресения, Baptist Cherkov’ Voskreseniya) na cidade ucraniana de Sebastopol. O nome denuncia a influência que os anabatistas exerceram sobre os batistas eslavos, pois a ressurreição era uma doutrina cara àqueles.  Como aconteceu com os primitivos cristãos no Império Romano, o sistema de governo congregacional provou sua superioridade em contextos de dura perseguição religiosa: ao contrário dos grupos episcopalistas que se desfaziam assim que suas lideranças eram aprisionadas, a denominação batista, descentralizada, ainda conseguia se manter operante e ativa na URSS. A igreja em que hoje congrego, a PIB em Carapicuíba-SP, também se chamava inicialmente Igreja Batista Ressurreição, e foi organizada em 1951 por imigrantes eslavos, em sua maioria oriundos da então República Socialista Soviética da Ucrânia. Créditos da imagem: Russianname (Wikimedia Commons).

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O movimento reformado entre os batistas brasileiros

Abaixo, o Pr. Franklin Ferreira é entrevistado pelo site iPródigo, em vídeo postado no Vimeo. Teólogo batista na linha reformada, ele responde aqui à pergunta sobre se é possível ser batista reformado no Brasil de hoje. Vale a pena conferir.


Os batistas e a sua contribuição para a obra missionária

No vídeo acima do site Dailymotion, compartilho com o irmão leitor uma palestra do Dr. D. B. Riker sobre o legado do povo batista na área de missões. *

O discurso foi proferido em 2009, na IV Conferência Teológica da ABIBET (Associação Brasileira de Instituições Batistas de Ensino Teológico). Tenho sérias ressalvas em relação ao chamado “Evangelho Social” e a figuras como Billy Graham — que há muito não têm qualquer compromisso com a ortodoxia bíblica –, ambos mencionados honrosamente pelo palestrante. Também não vejo em que o ativismo político de Martin Luther King tenha contribuído efetivamente para a obra missionária — e Solano Portela, neste artigo no blog “O Tempora, O Mores”, concorda comigo.

Mesmo assim, há informações preciosas fornecidas pelo orador, que demonstram que a denominação batista se distingue historicamente pelo seu ardor por missões, área em que é pioneira e líder, para a glória de Deus. Outros grupos, como nossos irmãos presbiterianos, distinguem-se por seus grandes teólogos, os quais muito têm contribuído para que o povo de Deus obtenha melhor entendimento das Escrituras e, consequentemente, grande edificação. Os batistas não nos destacamos nessa área, porém, foi do agrado do Altíssimo nos conceder graciosamente que nos notabilizássemos por nossos missionários. Mais uma vez, glória ao Senhor por homens que são verdadeiramente “dons” que ele deu à Sua Igreja (Efésios 4.11)!

* Atualizado (05/04/12 às 18h50). Finalmente descobri como se faz para inserir vídeos desse site no WordPress! =)


Minhas restrições à Confissão de Fé Batista de 1689

Confissão de Fé Batista de 1689

No texto abaixo apresento certas discordâncias e ressalvas minhas quanto a uns poucos pontos não essenciais desse histórico documento batista que subscrevo. Algumas delas também são compartilhadas por outros irmãos da minha denominação que abraçaram a fé reformada tal como exposta na Confissão de Fé Batista de Londres de 1689. Listo-as a seguir:

1) Não creio que o Papa seja o Anticristo, como assevera 26.4: “O papa de Roma não pode, em qualquer sentido, ser o cabeça da Igreja; ele é o anticristo, o homem da iniquidade e filho da perdição, o qual se opõe e se levanta contra Cristo e contra tudo que se chama Deus, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, como se fosse o próprio Deus. O Senhor Jesus o matará com o sopro da sua boca”. O chefe do catolicismo pode ser UM anticristo, mas não O Anticristo. Entendo que os textos de 1 e 2 João ensinam que há muitos anticristos, aos quais Paulo faz alusão em 2Ts 2.2-9: “o homem da iniquidade” refere-se, pois, a uma pluralidade de agentes, tendo-se aí um típico emprego do singular como plural, como no caso de “o varão” no Salmo 1.1; “o sábio”, em Provérbios 21.11; “o justo”, em Isaías 26.7; etc.

2) Também discordo da primeira parte de 10.3: “As crianças que morrem na infância, se eleitas, são regeneradas e salvas por Cristo, através do Espírito que obra quando, onde e como lhe agrada”. Com Albert Mohler e Daniel L. Akin, entendo que as crianças que morrem na infância são todas eleitas.

3) Estou totalmente de acordo com o parágrafo 22.7: “Por instituição divina, é uma lei universal da natureza que uma proporção de tempo seja separada para a adoração a Deus. Por isso, em sua Palavra – através de um mandamento explícito, perpétuo e moral, válido para todos os homens, em todas as eras – Deus determinou que um dia em cada sete lhe seja santificado, como dia de descanso. Desde o começo do mundo, até a ressurreição de Cristo, esse dia era o último da semana; e, desde a ressurreição de Cristo, foi mudado para o primeiro dia da semana, que é chamado ‘Dia do Senhor’. A guarda desse dia como sábado cristão deve continuar até o fim do mundo, pois foi abolida a observância do último dia da semana”. Porém, faço uma ressalva: “[no domingo] os cristãos devem abster-se de todo trabalho secular, excetuando aquele que seja imprescindível e indispensável à vida da comunidade” (Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira, X, grifo meu).

4) Preferiria “fé salvífica” a “fé salvadora” (capítulo 14). Sim, eu sei que as duas expressões são sinônimas e sancionadas pela língua. Acontece que, dada as distorções e abusos que a heresia da “confissão de fé positiva” vem promovendo sobre o conceito bíblico de fé (como se essa tivesse em si mesma um poder inerente e, consequentemente, capaz de por si só operar salvação), entendo que “salvífica” ajudaria a nos guardar melhor de eventuais mal-entendidos.

A íntegra da Confissão pode ser acessada aqui. A CFB 1689 é a segunda produzida pelos batistas particulares (calvinistas) ingleses — a primeira é a de 1644. Seu texto é o mesmo da Confissão de Fé de Westminster (1646), porém, adaptado; a de Filadélfia (1742), por sua vez, é uma cópia da Confissão Batista de Londres de 1689, mas com dois artigos a mais.


Algumas coisas que você precisa saber sobre os batistas

Primeira igreja batista norte-americana

A primeira igreja batista em solo americano, organizada em 1638 por Roger Willians. Créditos: Daniel Case (sob Creative Commons)

O objetivo do presente texto é esclarecer alguns pontos doutrinários sustentados pelos batistas e que, muitas vezes, são mal interpretados por nossos irmãos de outras denominações. Tem também a finalidade de dirimir certas dúvidas e desfazer certos preconceitos. Assim, sem qualquer pretensão proselitista, ponho-me agora a discorrer sobre tais pontos, procurando ser o mais objetivo e claro possível nessa minha tentativa.

A forma do batismo é uma das características distintivas dos batistas?

Não. Os crentes agnominados batistas nunca tiveram na adoção do mergulho (a tradução do termo grego batismo) um de seus distintivos. Tampouco constituem uma seita que tem no batismo por imersão uma nova forma de sacramento. Uma simples leitura de textos como a Declaração Doutrinária da Convenção Batista Brasileira (clique aqui) ou a Confissão de Fé de Londres de 1689 (clique aqui) basta para comprovar isso.  Na verdade, não foram eles que se intitularam “batistas”: este epíteto foi dado pela população e pelas autoridades, pois foi justamente a forma de batismo que mais chamou a atenção do povo de fora.

Aliás, historicamente, outros grupos também terminaram recebendo denominações que lhe foram dadas por outros, e.g., “protestantes”, “huguenotes”, “puritanos” e mesmo “cristãos”.

Por outro lado, quem frequenta ou já frequentou uma igreja batista não me deixa mentir: a forma de batismo é uma das doutrinas MENOS PREGADAS ali (é raramente pregada, mesmo). E atestamos que as pregações de nossos púlpitos se ocupam muito mais de temas como graça, salvação, santidade, mordomia etc. Há várias tendências teológicas dentro da denominação, tenho que reconhecer, mas a quantidade de espaço que se deve dedicar ao mergulho nos sermões é algo consensual entre nós.

Por que os batistas só batizam adultos?

Não, os batistas não batizam apenas adultos. Não cremos nem ensinamos que o batismo deva se limitar a esses, mas sim que ele deve ser administrado única e exclusivamente aos crentes em Jesus Cristo (para as referências bíblicas, cf. os textos indicados nos links acima).

Os batistas não aceitam o calvinismo?

Há setores na denominação que o abraçam, mas outros o rejeitam. John Bunyan (1628-1688, autor do famoso livro “O Peregrino”), Alexander MacLaren (1826-1910, grande expositor da Bíblia), Charles H. Spurgeon (1834-1892, chamado de o “Príncipe dos Pregadores”) e John Gill (1697-1771, eminente erudito hebraísta) são exemplos de vultos batistas do passado que defendiam as doutrinas da graça. No presente, nomes como John Piper (pastor e escritor), Albert Mohler (presidente do prestigioso Seminário Teológico Batista do Sul dos EUA) e Erroll Hulse (pastor e conferencista sul-africano radicado na Inglaterra) destacam-se entre os batistas reformados.

A Convenção Batista Brasileira é uma associação de igrejas?

Não, a CBB é apenas uma associação constituída por elas com vistas a se alcançar certos fins que, para uma igreja individual, seriam muito difíceis ou mesmo impossíveis (difusão de literatura religiosa, promoção de missões transculturais, empreendimentos de ação social de grande envergadura etc.) Não há igrejas batistas filiadas à Convenção Batista Brasileira. Como a Comunhão Reformada Batista no Brasil, trata-se ela de uma associação de indivíduos.

Finalizando, espero que este meu texto tenha ajudado a clarificar certas questões levantadas por fieis de outras confissões, demonstrando que não constituímos um “partido do batismo”, mas sim um grupo de discípulos de Jesus que tem a Bíblia como única regra de fé e prática. Discípulos que se juntam a outros irmãos que, espalhados nas mais diversas denominações, tenham também o mesmo propósito.


A Tribuna ou o Púlpito?

Posse dos deputados federais eleitos para a 54a. legislatura

Posse dos novos deputados federais. Créditos: Site da Câmara dos Deputados

Hoje é o dia em que tomam posse os 513 deputados federais eleitos para a nova legislatura. Destes, 71 compõem a chamada “bancada evangélica”, o que representa um acréscimo de 65% em relação aos 43 do período antecedente. A maioria desses congressistas, como é largamente sabido, ocupam posição de liderança em suas respectivas igrejas, isto é, ao menos em tese, exercem função pastoral, ainda que com títulos como bispo etc. Pelas Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores Brasil afora a participação desses políticos é igualmente significativa, como sabemos.

O testemunho que essa crescente bancada vem dando ao longo dos anos, com as honrosas exceções de sempre, tem deixado muito a desejar. Para ficarmos apenas na esfera federal, em escândalos como os do “Mensalão”, da “Máfia das Ambulâncias”, dos “Anões do Orçamento” etc. sempre tem aparecido o nome de parlamentares a ela pertencentes, enxovalhando o nome de Cristo (de que se dizem portadores) aos olhos da sociedade brasileira, já tão carente de exemplos de autoridades que lhe sirvam de referência na integridade ética e moral.

Porém, não é sobre o péssimo testemunho desses supostos “irmãos” que quero tratar hoje aqui. O que gostaria de abordar hoje é um aspecto pouco debatido quando se discute a atuação dos políticos evangélicos: o fato de muitos deles deixarem a função pastoral que alegam exercer para atuarem em cargos eletivos. Afinal, não é no mínimo questionável que, num País onde a falta de obreiros em muitos campos missionários é gritante, tantos pastores pretextem ter chamado do Senhor e, no entanto, se lançarem candidatos para a carreira política? E o chamado ao pastorado que receberam (ou dizem ter recebido), não estaria sendo traído por eles? E, se estão traindo o chamado, estariam eles em condições espirituais para o próprio papel original de liderança eclesiástica?

No estado de São Paulo mesmo, a minha denominação batista se vê às voltas com a constrangedora realidade de igrejas e congregações fechadas por falta de obreiros — e, para maior constrangimento ainda, a situação é mais grave justamente na região onde se estabeleceram os seus primeiros missionários, vindos dos EUA, os quais organizaram em 1871 a primeira igreja batista em território nacional. E, passados tantos anos, ainda é grande o número de municípios sem nenhum trabalho batista em terra bandeirante. Tudo isso torna legítimo questionar, por exemplo, o porquê de um ministro do Evangelho jubilado, ou perto do jubilamento, ter ainda “lenha para queimar” na atividade política, mas não para dar alguma ajuda naqueles trabalhos, onde a contribuição dele seria de valor inestimável.

Portanto, salvo situações excepcionais, seria mais apropriado deixar que alguns dentre as próprias ovelhas (não gosto do termo “leigos”) se envolvessem na disputa e exercício de cargos políticos eletivos, e os pastores se ocupassem da “excelente obra” do episcopado (1 Timóteo 3.1), que é o seu mister (1 Pedro 5.1ss). E essa “excelente obra”, como nos lembra o autor de Hebreus, consiste em  velar pelas almas das ovelhas, como aqueles que hão de dar conta delas (Hebreus 13.17). Aos ministros fieis à sua vocação é dada a bendita promessa: “Quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória” (1 Pedro 5.4).

O grande número de pastores (ou “pastores”) lançando-se candidatos em cada período eleitoral é mais um indicador da triste situação espiritual em que se encontra hoje o movimento evangélico nativo. E é mais um motivo para encararmos com maior senso crítico o bordão “irmão vota em irmão”.


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