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Bíblia de Genebra, ainda sem versão em português

Bíblia de Genebra

Edição de 1581 da Bíblia de Genebra. Créditos da imagem: Liam Quin (Wikimedia Commons)

Amado irmão leitor, graça e paz! Depois de um longo período de ausência, estou de volta para blogar, graças a Deus!

Hoje queria tratar de um assunto que tem me incomodado já há algum tempo. Refiro-me à comercialização em nosso País da bem conhecida Bíblia de Estudo de Genebra publicada pela Editora Cultura Cristã (ligada à Igreja Presbiteriana do Brasil) e pela Sociedade Bíblia do Brasil. Essa edição das Escrituras vem gozando de crescente aceitação entre o povo de Deus, e não apenas entre os reformados, que já abreviaram o nome dela para “Bíblia de Genebra”… E é aí que se faz necessário um esclarecimento.

Pois sabia o irmão leitor que essa “Bíblia de Genebra” NÃO é a versão portuguesa da célebre Bíblia de Genebra original inglesa? Isso mesmo: ela não é a tradução daquela edição tão querida dos reformadores e puritanos (confira aqui sua história). Se alguém quiser comprovar isso por si próprio, é só clicar aqui. Por outro lado, uma versão francesa (ainda incompleta) está disponível aqui.

Bem que a Editora Cultura Cristã e a Sociedade Bíblica do Brasil poderiam deixar isso mais bem explicitado para o consumidor. Não estou dizendo que elas deliberadamente estejam induzindo os crentes a erro. Porém, irmãos reformados com quem tenho conversado, e que têm ou desejam ter aquela obra,  surpreendem-se quando lhes informo sobre tal fato. Fica óbvio que a denominação Bíblia de Estudo de Genebra os induz a acharem que se trata mesmo da edição vernácula da Bíblia de Genebra. Por outro lado, a Wikipédia em português tem ajudado a aumentar a confusão com este texto equívoco aqui.

Ainda assim, a despeito desse meu senão, essa bíblia comentada da Cultura Cristã/SBB parece ser, de fato, uma interessante opção de compra, dada a sua aceitação por teólogos reformados como o batista Franklin Ferreira, que fez uma resenha elogiosa do livro, a qual pode ser acessada aqui. Mas, ainda assim, confesso que gostaria muito de um dia ver publicada em nosso idioma a Bíblia de Genebra sem aspas. 😉

ATUALIZADO (01/02/2013 ÀS 8H59)

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Reflexões para o Dia da Bíblia (2): As bíblias comentadas

Oração

Créditos: FreeDigitalPhotos.net

A graça e a paz do Senhor Jesus aos amados irmãos!

Neste ‘post’, quero tratar sobre as edições da Bíblia com notas de rodapé explicativas, as quais vêm cada vez mais conquistando o público evangélico. O mercado (é isso mesmo, mercado) já oferece cada vez mais opções para atender a demanda dos diversos segmentos, proporcionando grandes lucros às editoras. Definitivamente, foi deixado para trás um tempo em que a publicação desse tipo de literatura estava fortemente imbuída do idealismo de se difundir conhecimento teológico e fazer apologética (v.g., Bíblia de Genebra, Bíblia Scofield, Bíblia de Jerusalém). Não é difícil entender a predileção desse povo por aquelas, ainda mais na época em que vivemos, onde a cultura vigente é a de que as coisas podem ser obtidas just at one click, na velocidade semi-instantânea da internet.

Assim, muitos se espantariam se lhes fosse contado sobre a necessidade de labor, paciência, tempo para meditação e atitude de reverência e temor, exigências para se abordar devidamente o Livro Santo (coisas que, por seu turno, só vem com oração e súplicas por iluminação do Espírito). Muito mais fácil, cômodo e prático é consultar as notas para se obter a mensagem do texto escriturístico lido, mesmo ao custo de se ficar viciado e perigosamente dependente delas: afinal, as notas de rodapé são produtos totalmente humanos, logo, não infalíveis e destituídas de autoridade divina. Aliás, certa bíblia comentada de nossos dias teve suas notas condenadas por heréticas pela própria denominação proprietária da editora que a publica.

A esta altura, é importante esclarecer que, a princípio, não sou contra bíblias comentadas nem comentários bíblicos. Em ambos se podem achar subsídios e insights muito úteis ao preparo de um bom sermão, por exemplo. E a Bíblia de Genebra, com suas notas explicativas de rodapé, foi de grande utilidade durante a Reforma Protestante para disseminar as doutrinas da graça e refutar as heresias e superstições medievais. Como comprova a história, aquela edição serviu para estimular o estudo da Palavra de Deus e firmar os fieis na Sã Doutrina, não o contrário, como se verifica na febre atual por bíblias anotadas.

Por outro lado, o estudante que quer se aprofundar no conhecimento do Livro Santo encontra muitos dados e informações valiosos em atlas, concordância e dicionário bíblicos, recursos extrabíblicos mas que, devidamente explorados, podem lhe proporcionar progresso real nessa gloriosa tarefa.

Apesar de aparentemente fugir do assunto, quero aproveitar o ensejo para tratar também da Bíblia de letras vermelhas (i.e., com as palavras de Jesus destacados nessa cor). A respeito delas, Vincent Cheung sabiamente escreveu: “Algumas pessoas tratam as palavras de Jesus como se constituíssem uma Bíblia dentro da Bíblia, ou como se fossem especialmente confiáveis e autorizadas. Se essa gente faz isso conscientemente é porque talvez suponha que isso seja correto e bom, e que isso representa uma atitude de reverência especial ao nosso Senhor. Contudo, dado que o ensino da própria Bíblia é que ‘Toda Escritura é o sopro de Deus‘, honrar de uma maneira especial as palavras de Jesus é na realidade uma negação da inspiração da Escritura” (O Ministério da Palavra. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2010. Pg. 23). Acrescento eu que, ao contrário do que muitos imaginam, tais letras vermelhas na verdade atrapalham a leitura do texto bíblico.

Para finalizar, gostaria de deixar esta citação de Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) para reflexão dos que estudam ou querem estudar a Bíblia. Comentando sobre sua abordagem do Livro quando ainda era incrédulo, ele escreveu: “Determinei, por isso, dedicar-me ao estudo da Sagrada Escritura, para a conhecer. Vi então uma coisa encoberta para os soberbos, obscura para as crianças, mas humilde ao começo, sublime à medida que se avança e velada com mistérios. Não estava ainda disposto a poder entrar nela ou inclinar a cerviz à sua passagem. O que senti, quando tomei nas mãos aquele livro, não foi o que acabo de dizer, senão que me pareceu indigno compará-lo à elegância ciceroniana. A sua simplicidade repugnava ao meu orgulho e a luz da minha inteligência não lhe penetrava no íntimo”. (Confissões. São Paulo, SP: Editora Nova Cultural, 1999. Pg. 84).

ATUALIZAÇÃO (16:42): Esqueci de mencionar as referências marginais que algumas bíblias trazem (e.g., a bem conhecida Almeida Revista e Corrigida da IBB), outro recurso útil ao estudante da Palavra. Esse também não pode dispensar o uso de dicionários de português para elucidar o sentido dos termos que lhe forem desconhecidos, para o bom aproveitamento de sua leitura.


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