Piper e o dom de línguas

John Piper

John Piper, um dos grandes expoentes atuais do neocalvinismo. Créditos: Rachel Ford James (sob Creative Commons)

E não é que o pastor e escritor batista reformado americano John Piper defende a contemporaneidade do dom de línguas? Confira o leitor mesmo aqui.

A posição dele sobre essa questão é compartilhada por outros que, juntamente com Piper, são os expoentes do chamado neocalvinismo, como Paul Walsher e Mark Driscoll (malgrado divergirem entre si sobre outras questões). Discordam, assim, que a Bíblia ensine que certos carismas da Igreja Primitiva hajam cessado no presente, como os dons de línguas e o de profecia — embora seja lícito questionar como este último dom pode se coadunar hoje com o princípio de Sola Scriptura, por exemplo.

Todavia, quero me ocupar aqui com o dom de línguas, manifestando minha discordância quanto à sua continuidade atual e expondo minhas razões para assim pensar. É o que farei a seguir.

Pois bem, o Senhor Jesus disse que línguas eram um “sinal” (Mc 16.17). Nas ocorrências em Atos, fica implícito que se tratava de um sinal indicativo da universalidade do Evangelho, destinado não só aos judeus (os primeiros recipientes da mensagem), mas também aos prosélitos (cap. 2), gentios (cap. 10) e mesmo aos joanitas (19.1-7). Portanto, confirmando que absolutamente todos os grupos possíveis eram abarcados pelo cristianismo. Mesmo o remanescente dentre a nação judaica (representado pelos apóstolos) teve dificuldades para aceitar que os gentios foram “enxertados” na oliveira (Romanos 11), mas o sinal das línguas serviu para atestar tal verdade aos judeus fieis (At 11.1-18).

Mas o que fica implícito nesse livro, Paulo deixa explícito em 1 Coríntios 14.21,22. Lemos ali: “Está escrito na lei: Por gente de outras línguas, e por outros lábios, falarei a este povo; e ainda assim me não ouvirão, diz o Senhor. De sorte que as línguas são um sinal, não para os fiéis, mas para os infiéis; e a profecia não é sinal para os infiéis, mas para os fiéis”. O que o apóstolo queria dizer com isso? Simplesmente, que o dom de línguas (que se manifestava em Corinto) era sinal para o povo judeu (os “infiéis”), e isso para cumprir a profecia de Isaías 28.11,12. Lembremos ainda que, desde o seu estabelecimento na cidade, tal igreja enfrentou forte oposição judaica (cf. At 18: parece mesmo que aquela ficava bem ao lado de uma sinagoga, v. 7; ainda, tal oposição recrudesceu justamente quando Paulo decidiu “partir para os gentios”, vv. 6ss).

A profecia citada por Paulo é um trecho de um capítulo que fala do juízo de Deus sobre Efraim e Judá por causa de sua impenitência. É também em Isaías 28 que temos o bem conhecido versículo: “Portanto assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu assentei em Sião uma pedra, uma pedra já provada, pedra preciosa de esquina, que está bem firme e fundada; aquele que crer não se apresse” (v. 16). Tal pedra é Cristo, rejeitada pelos judeus, em sua maioria, os quais sofreriam o devido castigo pela rebelião ( 1Pe 2.1-10), castigo do qual Jesus trata em seu longo Sermão Profético (Mt 24, 25). O propósito de tal carisma foi cumprido: independentemente da visão escatológica que se adote, nenhuma contempla a volta da necessidade da manifestação das línguas para atestação à nação judaica do caráter universal da religião de Cristo.

Todavia, alguns ainda insistem que tal dom poderia ter por finalidade viabilizar a proclamação do Evangelho para falantes de outros idiomas, e usam o próprio texto de Atos 2.1ss para respaldar tal ideia. Nesse caso, porém, não é crível que os judeus de outras partes do mundo, que ali estavam em peregrinação, e que visitavam a Judeia regularmente, não tivessem um meio comum de comunicação com os seus compatriotas locais, seja aramaico, hebraico ou mesmo grego koiné. Assim, as línguas manifestadas eram cumprimento de profecias do AT e sinal de que o Evangelho era de fato universal — e que abrangia também os odiados gentios, em cujas terras aqueles judeus viviam como estrangeiros, em hostilidade e desconfiança.

Por tudo isso, entendo que, pelo menos quanto ao dom em apreço, não se pode cogitar que ele não tenha cessado para a nossa era.

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21 respostas para “Piper e o dom de línguas

  • Nelson Ávila

    Parabéns irmão! Excelente texto! De fato, não conhecemos ninguém em nosso dias que tenha o dom de línguas conforme Atos 2. Ali cada um entendia na sua própria língua, enquanto hoje o que nos é apresentado é um balbuciar desconexo de significado. Uma reunião mundial foi realizada certa vez em Israel por aqueles que defendem tal posicionamento de continuidade, todavia foi preciso fones de ouvido e tradutores para o evento.
    Nelson Ávila.

    • Vanderson M. da Silva

      Grato pelo elogio, meu irmão! A Palavra de Deus é clara quanto à finalidade desse carisma, circunscrito àquele momento histórico em que a Igreja vivia então, como comprovamos aí no texto. Porém, mesmo alguns reformados que rejeitam o pentecostalismo acham, todavia, que nada há no Livro Santo que apóie a cessação de dons como o de línguas. Além dos neocalvinistas de hoje, D. Martyn Lloyd-Jones também tinha esse entendimento equivocado.

      Obrigado pela visita! Abs!

  • Jorge Fernandes Isah

    Vanderson,

    faço coro com o Nelson: ótimo texto!

    O que mais me intriga é que, por quase 2.000, os dons de línguas não se manifestaram na Igreja. Somente no início do século passado é que “voltaram” em uma forma não bíblica, como você e o Nelson afirmaram, e com a qual concordo. E o que temos nos dias de hoje? Uma verdadeira balbúrdia na maioria das igrejas, com uma profusão de onomatopéias [podem ser qualquer coisa, qualquer som ou ruído, menos uma língua que seja inteligível por alguém], sem que haja interpretação, causando escândalo para o nome de Cristo. Essas manifestações ferem claramente o princípio pelo qual o apóstolo Paulo disse que a igreja de Corinto deveria seguir, para que não fossem dados como loucos.

    Outro grave erro é a interpretação de 1Co 13, quando Paulo diz que “se” falasse a língua dos anjos… Paulo não disse que podia ou poderia falar tal língua, mas disse que mesmo que a falasse, sem amor, de nada valeria. Portanto, não é dado aos homens falar como os anjos; por isso, esse “consenso” entre os carismáticos ou não cessacionistas é uma deturpação do real sentido ao que o apóstolo quis dizer.

    Além do quê, a partir dessa suposta espiritualidade, muitas outras bizarrices e deturpações foram criadas nas igrejas, aumentando ainda mais o escândalo ao Evangelho; frutos claros de mentes carnais que se dizem espirituais; são guias cegos guiando outros cegos.

    Grande abraço!

    Cristo o abençoe!

    • Vanderson M. da Silva

      Que bom tê-lo aqui de volta, irmão Jorge! Fico muito feliz que tenha gostado do texto. A minha refutação à contemporaneidade do dom de línguas, defendida por pentecostais e não-cessacionistas (ou continuístas), ateve-se à Bíblia somente, deixando de lado por ora considerações históricas. Fiz isso, não porque ache ilegítimo fazer tais considerações, mas é porque eu poderia ser acusado de estar me valendo do mesmo expediente dos pentecostais que critico: isto é, usando a experiência para fazer exegese das Escrituras.

      Um abração! Fique no shalom de Deus.

      P. S.: Estou devendo visitas ao seu blog e ao do Nelson… Mas vou aparecer lá sim, Deo volente!

  • Aline Louize

    Contentíssima em ler o texto!

    O mais incrível não é a questão dos dons terem cessado ou não.
    O ponto principal da questão é que se não houvessem cessado, ouviríamos irmãos falando em inglês, finlandês, dialetos africanos…e não sílabas desconexas, que não servem para edificação de ninguém, nem pregam o evangelho a ninguém…

    Att

    • Vanderson M. da Silva

      Fico contente pela contribuição que o seu comentário trouxe, irmã Aline. Há um documento da Convenção Batista Brasileira, chamado “Parecer da Comissão dos Treze”, publicado por ocasião de uma controvérsia que surgiu dentro da denominação nos anos 60. Foi uma resposta aos irmãos e igrejas que aderiram ao movimento de “renovação espiritual” (pentecostalista), denunciando o caráter antibíblico das manifestações atuais de glossolalia. O texto demonstra cabalmente que tais manifestações são isso aí mesmo que a irmã apontou: sílabas desconexas e não idiomas estrangeiros, como o NT afirma categoricamente.

      Grato por sua participação! Volte sempre!

  • Anna Barros

    Mto bom texto, amado irmão Vanderson.

    Que sirva de reflexão para cada leitor que aqui passar. Serve tbm de alerta para que não caiamos no erro de achar que Piper é Deus, como muitos brasileiros tem achado. Pelo contrário, ele é humano e pode falhar, apesar das grandes e valiosíssimas contribuições que tem trazido para a Igreja de Deus.

    É aquela máxima da CFB 1689 que sempre falo… ‘mesmo as igrejas mais puras sobre a terra estão sujeitas a erros doutrinários e a comprometimentos. algumas se degeneraram tanto, que deixaram de ser igreja de Cristo e passaram a ser sinagogas de satanás…” Igreja é composta de homens, homens falhos como nós e como John Piper.

    A nós e a ele, resta clamar a Deus que nos dê sabedoria e espírito de discernimento na Palavra para que nunca deixemos de ser de Cristo.

    Forte abraço,
    Anninha

    • Vanderson M. da Silva

      Muito obrigado pelo elogio, Anna! Fico bastante contente em saber que você gostou do meu artigo. Sim, é isso mesmo: John Piper tem proporcionado grande edificação aos crentes e às igrejas com seus textos e pregações, pela graça que o Senhor tem concedido a ele. Mas, como todos nós, Piper não é infalível. A tentação a se idolatrar esse ou aquele pregador da moda é sempre presente, e é preciso nos guardarmos disso.

      E, como você bem disse, temos que orar por nós e por ele para obtermos de Deus a sabedoria e o discernimento bíblicos necessários para a nossa vida cristã.

      Um abração!

  • Nelson Ávila

    Bem colocado pelo irmão Jorge! Interessante é que os irmãos que defendem um dom de línguas para os nossos dias baseado em 1 Cor 13, como uma espécie de línguas angelicais, e por isto incompreensíveis, parecem nunca ter ouvido falar em “figuras de linguagem”. Paulo claramente ali está se valendo de hipérbole, ou seja, apresentando fatos extraordinários e que não acontecerão, para apresentar a superioridade do amor sobre todas as nossas atitudes. Em outras palavras, são exageros!
    Uma outra questão interessante é que quando um anjo fala a Abraão, aquele entende. Quando um fala a Moisés, este também entende. Com Jacó, Maria e qualquer outro na Escritura que tenha conversado ou ouvido a voz de um anjo, em momento algum é mencionado qualquer caso de língua “estranha”… Parece que só este suposto anjo em 1 Cor 13 não consegue se expressar direito. Será gagueira, problema de dicção, algum tipo de cacoete linguístico ou coisa que o valha??? Pois não podemos nem dizer que o anjo estava falando era grego, pois este Paulo entendia… rsrs…
    Deus abençoe a todos aqueles que se aproximam de Sua Palavra e ilumine os nossos entendimentos para atentarmos ao Seu claro ensino.
    Nelson Ávila.

    • Vanderson M. da Silva

      Amém, Irmão Nelson! Interessante também o fato de que as línguas extáticas são fenômeno bem conhecido no paganismo: até o islã conhece tais manifestações (sufis). Em cultos afro-brasileiros elas são corriqueiras. Aliás, já em sua época, o profeta Isaías denunciava “os adivinhos, que chilreiam e murmuram” (Is 8.19).

      Um abraço!

  • Rafael Faria

    O Piper defende o “new calvinism” (no português “novo calvinismo”) e não o neocalvinismo.

  • joel da silva

    os caras ai de cima estão certos,o que se ouve nos cultos pente e neopentecostais, são um monte de palavras desconexas e initeligíveis,eu era membro de uma Assembleia de Deus e sei do que estou falando.isso não pode ser o mesmo dom neotestamentar praticado pelos crentes da época,existem imitações,e, cartase emocional,provocados pelo subi-consciente. um certo teológo cessacionista chama isto de “transe aprendido” e não pronuncias sobrenaturais. Bom e´isso ai´. Abraços.

  • Felipe Barroso

    Acredito sim no dom de línguas para edificação pessoal. O que vejo é pessoas como você que por saberem muito sobre Deus acham que conhecem a Deus. Eu sei muito sobre Hitler por estudar sobre Hitler, mas nunca cheguei a conhece-lo. Mais o que acontece, é que pelo simples motivo de ter estudado a vida inteira grego, hebraico, hermenêutica, omelete, ovo cozido e o que mais tiver aí. O que essas faculdades não ensinam é a ter uma profunda intimidade com Deus. E ao invés de estar formados pastores que serão Pais espirituais, estão formando dominadores que não passam de homens que detém a verdade.

    • Vanderson M. da Silva

      Felipe, o dom de línguas, como qualquer outro carisma, não é para a edificação pessoal de ninguém, mas sim para a edificação da igreja (o “corpo” de Cristo): v. 1 Coríntios 12 e 14 e Efésios 4.8-16. O pensamento de que dons são para o proveito de quem os recebeu reflete a mentalidade individualista que caracteriza os dias em que vivemos, mentalidade que adentrou muitas denominações e hoje é predominante entre muitos evangélicos, infelizmente. Que gloriosa transformação testemunharíamos nas igrejas se cada crente passasse a ver o seu dom como meio de edificação, não para si, mas para seus irmãos e para a sua igreja, não é mesmo?
      Sobre as suas acusações a minha pessoa, que você sequer conhece, lamento e me entristeço por você. Em primeiro lugar, nunca pus os pés em nenhuma faculdade teológica ou seminário. Também jamais tive a petulância de me alçar a condição de grande conhecedor de Deus — em que você se baseia para afirmar que eu ajo assim?
      Por outro lado, também é antibíblica a oposição entre conhecimento teológico e intimidade profunda com Deus. Teologia é estudar acerca de Deus, para conhecê-Lo cada vez mais — mesmo tendo plena consciência de que Ele não nos revelou na Bíblia tudo sobre Si, mas apenas aquilo que Lhe aprouve revelar (Deuteronômio 29.29). As Escrituras nos ORDENAM a buscar conhecer a Deus: “o que se gloriar, glorie-se nisto: em me entender e me conhecer, que eu sou o SENHOR, que faço beneficência, juízo e justiça na terra; porque destas coisas me agrado, diz o SENHOR” (Jeremias 9.24); “conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR” (Oséias 6.3); “crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo” (2 Pedro 3.18).
      Não se esqueça também de que o amor que os irmãos devem ter uns pelos outros é resultado direto de seu conhecimento de Deus. Com efeito, é o que lemos em 1 João 4.7,8, “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor” (1 João 4.7-8).

  • eliel

    SERÁ QUE A LINGUA DOS ANJOS´É ESSA MESMO QUE AS VEZES OUVIMOS E SOA TÃO MAL AOS NOSSOS OUVIDOS ? TENHO IMPRESSÃO QUE SE OUVIRMOS UM ANJO FALANDO A GENTE VAI SE EMOCIONAR E ATÉ CHORAR DE TÕA LINDO QUE É.
    NA TV. CNÇÃO NOVA OS PADRES ENSINAM OS FIEIS FALAREM IGUALZINHO; SÃO ENSINADOS A FALAR A LINGUA ESTRANHA, E NINGUÉM INTERPRETA NADA. É ASSIM TB. EM MUITAS IGREJAS EVANGÉLICAS. FALAR VERDADE, EU GOSTARIA DE OUVIR O ANJO FALAR.

  • Marcelo Medeiros

    Gostaria de respeitosamente manifestar a mina discordância. Quando Isaías fala de Deus falando a Israel por meio de outra língua, isto quer dizer por meio das nações que a escravizaram. Com uma autoridade ímpar (não possuída por nós), Paulo emprega este texto, mas em um contexto totalmente diferente.

    Além do mais em I Co 14, o que se vê é uma defesa do dom de profecia, que segundo o apóstolo Paulo, tem, dentre outras funções, o de revelar segredos do coração e servir de sinal para o incrédulo, não especificando o texto se este dito incrédulo é judeu, ou não.

    • Vanderson M. da Silva

      Marcelo, grato pelo seu comentário. Desculpe-me pela demora em publicá-lo. Estive sem tempo ultimamente e, para piorar, tentando arrumar problemas aqui no PC.

      Indo ao assunto, mantenho minha opinião pelas razões aduzidas acima. No meu artigo não recorro apenas a 1 Coríntios 14, como você mesmo pode conferir — capítulo que trata tanto do dom de línguas quanto do dom de profecias.

  • Ruth Rossini

    E quanto aos outros dons?
    Que tb são sinais ?Os que Piper e outros carismaticos
    atestam estar estar ainda em evidencia como na igreja primitiva ?
    Qual seu posicionamento ?

    Ruth Rossini

    • Vanderson M. da Silva

      Ruth Rossini, obrigado por seu comentário. Perdoe-me pela demora em publicá-lo. Minha posição quanto aos outros dons miraculosos é a cessacionista, isto é, eles cessaram na igreja. Se ainda estivessem em evidência, livros da Bíblia ainda estariam sendo escritos, por exemplo.

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