Como abracei as doutrinas da graça

Vitral com Calvino

Vitral com imagem de João Calvino. Créditos: slinkstercat (sob Creative Commons).

No texto de hoje pretendo discorrer sobre o que me levou a aderir ao sistema teológico conhecido como calvinismo, palavra tão antipática à grande maioria dos cristãos de nosso País, sejam eles evangélicos ou católicos. Calvinismo que, no Brasil, jamais gozou do prestígio que já teve em outros lugares e momentos históricos (e.g., Grã-Bretanha e EUA da era puritana, por volta dos séculos XVII e XVIII), e que é amiúde mal compreendido e detratado por muitos crentes. Entre eles se incluem até certos professores de instituições teológicas, os quais preferem caricaturizar esse sistema teológico, apegar-se a interpretações subjetivas e arbitrárias das Escrituras e ignorar deliberadamente até a própria história de suas denominações.

Criado no ramo arminiano de um dos arraiais evangélicos brasileiros, também nutria meus preconceitos em relação ao calvinismo. Lembro-me bem de um livro que li na minha adolescência a respeito da doutrina da predestinação, de autoria do assembleiano Severino Pedro (CPAD). Os argumentos do escritor pentecostalista reforçaram o meu repúdio a um sistema que, no meu entendimento, ofendia à inteligência e atentava contra a própria Bíblia. Aderi de vez então ao arminianismo (na verdade, semi-pelagianismo) ali defendido.

Todavia, isso não quer dizer que todas as minhas dúvidas foram respondidas. Uma das coisas que me inquietou por muito tempo foi a questão da salvação daqueles que jamais tiveram uma oportunidade de ouvirem a mensagem evangélica: qual seria o destino final deles depois da morte? Seria justo condená-los eternamente às chamas do Inferno? Passagens como  Rm 2.11-16 não me satisfaziam — como, aliás, não satisfazem a crente algum que tenha audácia bastante para querer impor limites à soberania de Deus, como eu naquela época e como muitos e muitos ainda hoje.

Porém, uma grande crise espiritual que se abateu no início da minha juventude e que me levou por fim à minha real conversão forçou-me a um lento, tumultuado e doloroso processo de reformulação da minha teologia. O primeiro golpe foi a descoberta da incompatibilidade do pentecostalismo com o ensino ineludível do Livro Santo, o que me fez buscar, em oração, uma igreja na linha tradicional. O segundo, a doutrina da perseverança final dos fieis (mas sem ainda abandonar o livre arbítrio arminiano; deixei de ser arminiano para ser arminianista…). O terceiro, o abandono do pré-milenismo pré-tribulacionalista, tanto por considerações exegéticas quanto históricas (tal visão escatológica tem sua origem numa suposta profecia de Margareth MacLeod, irvingita que viveu no século retrasado). Por fim, meu ponto de vista acerca do livre arbítrio, como propugnado por Jacobus Arminius, John Wesley e outros, e isso de uma forma surpreendente.

Por meio de uma tia, então pastora da Igreja do Evangelho Quadrangular, tive contato com um comentário sobre Romanos por Russell Norman Champlin. Trata-se de um autor que hoje considero heterodoxo e cujos escritos recomendo que sejam lidos com o devido cuidado. Porém, ao tratar do capítulo 9 da mais famosa epístola do apóstolo Paulo, Champlin demonstra cabalmente, mediante exegese muito sólida, que aquela passagem quer dizer… exatamente o que diz: que Deus predestinou uns para a salvação e outros para a perdição, e que é descabida petulância do vaso querer questionar o oleiro que o moldou.

Seguiu-se ainda um período de relutância, confesso. Contudo, ao prosseguir nos meus estudos da Bíblia, mais e mais ficava claro para mim que, como Charles H. Spurgeon dizia, calvinismo nada mais é do que o próprio Evangelho. Acrescento eu que o termo “calvinismo”, na verdade, surgiu pelo fato de os seguidores de João Calvino constituírem o único ramo da Reforma a se manter fiel ao ensino escriturístico sobre antropologia, soteriologia e hamartiologia.

E aproveito o ensejo para lembrar que Martinho Lutero também sustentava a doutrina da predestinação, e escreveu mais sobre o tema do que o próprio reformador de Genebra — para surpresa de muita gente. Predestinação que, por sinal, já havia sido ensinada antes por Agostinho de Hipona e, depois da Reforma Protestante, também por vultos como John Owen, Charles Hodge, John Gill, Abraham Kuyper e B. B. Warfield. Ao fazerem isso, porém, só estavam adotando e se submetendo à mesma posição do apóstolo Paulo e do próprio Senhor Jesus Cristo, “em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência” (Cl 2.3). Sobre esse último ponto, aconselho o leitor a ler a Teologia Sistemática de Vincent Cheung, disponível na internet, em que o autor fornece irrefutável embasamento bíblico sobre a questão, e-book que pode ser acessado aqui (v. em especial as págs. 153 ss).

Porém, a gota d’água que me fez convencer de que realmente as doutrinas da graça soberana conhecidas como calvinismo estavam em harmonia com as Sagradas Escrituras foi a minha reflexão sobre Gênesis 2.17. Lemos ali que o Senhor advertiu ao primeiro homem que esse morreria no dia em que comesse o fruto proibido. Adão realmente o comeu (Gn 3), mas não morreu “no dia” — quer dizer, não fisicamente (isso apenas viria anos depois – Gn 5.5). Concluí que a morte ali era a morte espiritual, da qual a morte física era consequência. Essa reflexão, em conjunto com Efésios 2.1ss e outras passagens, firmou a minha convicção de que a doutrina da depravação total do homem não foi inventada por João Calvino, mas é o que a Bíblia toda em seu conjunto inequivocamente ensina, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento. Ficou explícito que, por si só, nenhum ser humano pode, de moto próprio, vir a Deus, e que é esse quem toma toda a iniciativa no processo, dando até a própria fé com que o fiel crê salvificamente (Ef 2.8; Fp 2.12; Hb 12.2).

Verdade profundamente humilhante ao ego, mas à qual devemos todos nos submeter, deixando de lado nossos preconceitos teológicos e ideias preconcebidas. Afinal, gostem ou não, cristãos arminianos que são ortodoxos em relação às demais verdades escriturísticas têm que aceitar o que se lê em passagens como 1 Samuel 15.3, não é mesmo? A doutrina da soberania divina não pode ser motivo de escândalo para o salvo: “Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o SENHOR, faço todas estas coisas. … Ai daquele que contende com o seu Criador! o caco entre outros cacos de barro! Porventura dirá o barro ao que o formou: Que fazes? ou a tua obra: Não tens mãos?” (Isaías 45.7,9).

Finalizo este artigo com o bem conhecido trecho de Romanos 11.33-36, trecho que, por sinal, é um hino de adoração Àquele que é o Autor da salvação: “O profundidade das riquezas, tanto da sabedoria, como da ciência de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis os seus caminhos! Porque quem compreendeu a mente do Senhor? ou quem foi seu conselheiro? Ou quem lhe deu primeiro a ele, para que lhe seja recompensado? Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém”.

Anúncios

12 respostas para “Como abracei as doutrinas da graça

  • Anninha

    Muito bom texto… acho que 90% de nós, reformados, passamos por esses estágios aí… desde ser arminiano, pôr em xeque o que cremos e então, enxergarmos à luz das Escrituras. Soli Deo Gloria.

    té mais, então!
    Anninha

    ps.: no 8º parágrafo tem ‘moto’ ao invés de ‘modo’, na terceira linha de baixo pra cima! 😉

  • edson

    Anderson, ô site bom, meu irmão; Não o conhecia ainda; Está de parabéns! Domingo mesmo já vou publicar o endereço no nosso informativo; Quero que as minhas ovelhas adotem esse site, obrigatoriamente! Grande abraço.

    • Vanderson M. da Silva

      Puxa, meu irmão, quanta honra! Deus o abençoe por suas palavras! Acompanho à distância o seu trabalho e sempre tive grande admiração por sua pessoa e pelo seu ministério. E não me esqueço do irmão e da sua igreja em minhas orações. Já fui grandemente beneficiado por alguns de seus sermões online. Espero reservar tempo para ouvir mais alguns, Deo volente. Outro abraço!

      P. S.: É Vanderson, não Anderson… 😉

  • Nelson Ávila

    Parabéns pela postagem! Belo depoimento! Como a Anninha falou, também acho que a maioria de nós, antes de abraçarmos as doutrinas da graça, sustentamos algum tipo de doutrina que nos colocava como soberanos ou centro do universo. O próprio Spurgeon declarou no seu livreto “Verdades Chamadas Calvinistas” que todos os homens nascem arminianos e só depois se tornam calvinista (isso é, depois do chamado da graça.).
    Deus continue abençoando seu ministério poderosamente!
    Soli Deo Glória!
    Nelson Ávila.

  • Jorge Fernandes Isah

    Vanderson,

    Outro ótimo texto.

    O problema é que, mesmo muitos cristãos, resistem a compreender e entender a condição humana e a nossa relação com Deus. A ideia moderna diz que o homem é bom e o meio o corrompe [interessante que o meio é formado por homens, ou seja, outros homens a corromperem outros homens; ou será que os elementos materiais é que se encarregaram de corrompe-los?]. A Bíblia diz o contrário, que o homem é mau, pecador, ímpio, e Deus o regenera, capacitando-o a agir benignamente.

    Assim como você, Romanos foi um divisor de águas na compreensão da graça de Deus, juntamente com o livro do profeta Isaías e o Evangelho de João, especificamente. Mas o certo é que toda a Escritura referenda e proclama a graça divina. Depois de lê-los e muito meditar, todo o meu pensamento humanista caiu por terra… e dou graças a Deus dele ter operado em mim bem no início da minha conversão.

    Vou republicar o seu testemunho, ok!

    Cristo o abençoe!

    Grande e forte abraço, meu irmão!

    • Vanderson M. da Silva

      Olá, Ir. Jorge! Bom tê-lo aqui de novo!

      De fato, o ser humano resiste a aceitar o fato de que a sua condição diante de Deus e das exigências da Sua justiça é muito mais desesperadora do que ele imagina. A verdade do Evangelho é humilhante demais ao ego do homem, ego que lhe é mais caro que a própria vida: afinal, há gente disposta atentar contra essa, mas contra o ego, jamais!

      Fique à vontade para republicar o texto, meu irmão! Grato pelo elogio e pela visita. Abs!

  • Emerson

    “O terceiro, o abandono do pré-milenismo pré-tribulacionalista, tanto por considerações exegéticas quanto históricas (tal visão escatológica tem sua origem numa suposta profecia de Margareth MacLeod, irvingita que viveu no século retrasado).”

    Também passei pelo processo de “arminianista” para “calvinista”, e de um modo muito dramático. Cheguei a acreditar que havia perdido a salvação, foi horrível, até que através de João 6:37 Deus falou comigo. Que poderia eu fazer senão crer?

    Hoje minhas dúvidas são quanto a questão escatológica. Também não sou mais pré-tribulacionista, mas ainda não consegui me definir em relação às demais correntes.
    Qual é a sua posição escatológica?

    Deus o abençoe.

    • Vanderson M. da Silva

      Grato por sua participação aqui, Emerson. Irmão, entendo que o amilenialismo é o que melhor se harmoniza com o ensino bíblico sobre a questão. Já que você ainda está indeciso sobre escatologia, se me permite, gostaria de sugerir o livro de Millard J. Ericksson sobre a questão, “Escatologia a Polêmica em Torno do Milênio”, da editora Erdos: http://tinyurl.com/3tpeldp (dou minha palavra de que não recebo cachê algum para isso, rsrsrs!) Adianto que Ericksson, um calvinista moderado, adota a posição pré-milenista clássica, isto é, pós-tribulacionista, mas consegue sim fazer uma abordagem imparcial mostrando os prós e contras de cada uma das várias visões sobre essa doutrina.

      Deus o abençoe também! Abs!

  • jonas machado de morais

    Olá caro conterrâneo gostei de suas idéias, falaste com profundidade, que o Eterno continui lhe dando cada vez mais destas iluminações.
    Gde abç

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: