Os seminários, por quem nunca os frequentou

Biblioteca do Seminário Teológico Batista do Sul dos EUA

Seminário Teológico Batista do Sul dos EUA. Créditos: Alex Leung (sob Creative Commons).

Desde mais ou menos a época da minha conversão venho me dedicando ao estudo da teologia, e por isso foi natural que durante algum tempo passasse a considerar a possibilidade de um dia vir a cursar um bom seminário. No meu raciocínio, isso me proporcionaria maior desenvolvimento e profundidade como estudante da Bíblia e ainda capacitação para a obra do Senhor. Passaram-se os anos, e hoje esse sonho é coisa que eu não acalento mais.

Em parte isso ocorre por entender que um curso desses me tomaria um tempo além do desejável, exigindo-me até o afastamento de certos trabalhos que exerço na obra do Senhor, para a glória de Seu nome. Porém, em parte isso tem a ver também com minhas decepções para com a realidade atual de grande parte daquelas instituições, cujo corpo docente, em larga medida é cada vez mais avesso a reter firme “a fiel palavra, que é conforme a doutrina” (Tito 1.9), desviando a si e a seus alunos para ensinos heterodoxos e antibíblicos, “não entendendo nem o que dizem nem o que afirmam” (1 Timóteo 1.7) — com as honrosas exceções de sempre, claro. Aliás, há alguns anos, um jovem pastor reformado confessou, em tom de desabafo, que o celebrado seminário no qual cursou foi o lugar onde ele mais viu a Bíblia ser desonrada… Triste, muito triste.

Para analisar e comentar esses e outros problemas dos seminários há gente muito mais abalizada que eu, tanto por ser “de dentro” deles quanto por sua muito maior qualificação intelectual, acadêmica e teológica. Caso do Rev. Augustus Nicodemus que, em seu blog, escreveu dois belos textos sobre tal assunto (clique aqui e aqui), grandemente enriquecidos pelos debates nas respectivas seções de comentários.

Todavia, neste meu artigo, proponho-me a dar aqui uma modesta contribuição para a discussão. Um olhar de alguém de fora que também tem refletido sobre a questão e que ousa levantar alguns questionamentos:

1. O modelo de formação de futuros obreiros está mesmo em consonância com a Bíblia? Anos atrás o site Monergismo publicou um polêmico texto de Vincent Cheung, “Igreja e Seminário”, que pode ser acessado aqui. O teólogo sino-americano é contundente: argumenta que seminário só é necessário porque as igrejas são falhas em seu papel de preparar obreiros para o ministério. Segundo ele observa, “o modelo de treinamento de Cristo (e.g. Jesus e os Doze) e os apóstolos (e.g. Paulo e Timóteo) [mutatis mutandis, eu incluiria também o modelo vetotestamentário: Moisés e Josué, Elias e Eliseu, Jeremias e Baruque — autor] deveria ser mais do que suficiente, e que ele é aparentemente insuficiente somente porque as igrejas não o têm adotado realmente. Os presbíteros da Igreja deveriam ser capazes de treinar seus próprios parceiros e sucessores, ao invés de ter que enviar seu próprio povo para seminários, onde serão ensinados por pessoas que ninguém na igreja jamais conhece ou ouviu sobre ele”. A tese é controversa, e penso que esse ideal defendido por Cheung é quase impraticável em períodos de decadência espiritual como o nosso. Realmente, de minhas leituras sobre Calvino e sua escola em Genebra percebo que havia então uma proximidade muito maior entre essa e a igreja ali do que consigo ver hoje entre os modernos seminários e as igrejas. Porém, naqueles tempos vivia-se uma Reforma religiosa que foi um mais poderosos reavivamentos da história.

Sim, eu sei que há preocupação das instituições teológicas em dar a seus estudantes uma formação mais prática e menos teórica, buscando maior proximidade com as igrejas, futuro campo de ação daqueles. Contudo, o que me parece é que tal relação seminário/igreja vem fazendo com que o seminarista mais pareça um estagiário de igreja do que um obreiro em treinamento — pior ainda, um estagiário à brasileira, encarado muito mais como mão-de-obra auxiliar do que como alguém em fase de aprendizado e, por isso, carente de maior cuidado e atenção para com a sua formação. Há até pastor que faz coincidir seu período de férias com o do seminarista, aproveitando para botar esse à frente da comunidade e viajar com a família…

Por outro lado, à luz do lemos em 2 Timóteo 2.15 — “procura apresentar-te a Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade” — parece que o indispensável que se requer de um ministro é grande conhecimento do Livro Santo. Isso pode incluir, é verdade, saber na área das línguas originais e o básico de Arqueologia e Geografia Bíblicas. Claro, desejável é que ele vá além disso. Mas, repito, é desejável, não indispensável.

2. A produção teológica não estaria se concentrando demasiadamente nessas instituições teológicas? A impressão minha é que sim: cada vez mais o empreendimento teológico é visto como coisa de seminário. Por que a Igreja não pode ser igualmente produtora de teologia? Tanto mais que essa, no frigir dos ovos, existe para a Igreja. Como diz Abraham Kuyper, “os seminários devem ser como os parentes pobres das igrejas, prolongando a existência pela austeridade”.

3. Até que ponto certo academicismo é desejável? Como observa Vincent Cheung, em “Ordenando aos Hereges”, “alguns ministros têm maior respeito pelos padrões não cristãos de cortesia acadêmica do que pelo Senhor Jesus Cristo. E se eles querem parecer intelectuais e respeitáveis diante do mundo, e polidos de acordo com o padrão do mundo, então não prestam para serem pregadores do evangelho. Paulo não diz a Timóteo que dialogue com os falsos mestres, ou aprenda a perspectiva deles, mas que ordene-os a parar”. Obviamente, o que o teólogo denuncia é um conhecido vício que se herda dos seminários. E, goste-se ou não, tem que se dar a mão à palmatória a Cheung: pessoas como Paul Tillich e Hans Küng devem mesmo ser tratadas pelo que são, isto é, hereges que desencaminharam e ainda desencaminham para a perdição milhares de almas com seus escritos.

Para concluir, espero que este meu humilde texto sirva de alguma contribuição, por pequena que seja, para a reflexão sobre um assunto de suma importância para todos nós, pois diz respeito à formação daqueles que estão ou estarão liderando nossas igrejas. Que Deus, em sua longanimidade e graça, sê propício a todos nós, Seu povo, corrigindo-nos e guiando-nos para uma conformidade cada vez maior com Sua Palavra nessa questão.

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9 respostas para “Os seminários, por quem nunca os frequentou

  • Nelson Ávila

    Olá irmão Vanderson, como vai?
    Mais um excelente texto com indagações deveras pertinentes, todavia, creio que um tanto quanto pessimistas. Sei que corremos sempre esse risco ao enfatizarmos algo que julguemos importante, mas como você mesmo afirmou, há instituições que ainda se mantém idôneas, de onde se pode tirar muito proveito.

    Creio que apesar dos seus extraordinários esforços e capacidades, seria interessante repensar a idéia de freqüentar um seminário, afinal de contas, sempre há algo a mais a ser aprendido e no convívio com os colegas e professores, pode-se trocar muitas idéias.

    Outro benefício a meu ver é que o seminário o leva a analisar questões que você talvez não analisaria, ou demoraria para fazê-lo, mas prevaleço com a opinião de que verdadeiramente igrejas formam pastores, os seminários apenas ajudam na esfera teórica.

    Grande abraço!

    • Vanderson M. da Silva

      Oi, irmão Nelson! Obrigado pela honra de sua participação aqui, mais uma vez. Sim, posso repensar essa questão. Mas aqui na minha região, achar instituições teológicas sérias, abalizadas e ortodoxas é algo difícil, meu irmão. Muito difícil! 😦

      Deus o abençoe pela visita! Abraços!

  • Jorge Fernandes Isah

    Vanderson,

    como o Nelson disse, excelente post!

    Não li ainda os textos do Cheung, mas concordo com a sua opinião [e a dele] de que as igrejas perderam o ensino e a capacidade de formação eclesiástica, negligenciando uma de suas mais necessárias atribuições.
    Poucas são as igrejas que ainda têm seminários, não exclusivamente para a formação pastoral [pois nem todos são chamados a serem pastores] mas para a edificação do Corpo através do ensino bíblico. E acredito que a maioria foi vencida nesse aspecto pela preguiça ou incapacidade, o que não miniminiza em nada o desprezo ao mandamento de discipular. Se a maioria das igrejas não tem sequer uma E.B.D, como seriam capazes de manter um seminário?
    Muitas igrejas não têm suas confissões de fé, mais envolvidas com as questões jurídicas da igreja do que a espiritual.
    Acredito que seminários históricos e confessionais deveriam “abrir” suas classes via internet e possibilitar que outros irmãos [de várias denominações] tenham acesso a um ensino teológico bíblico. Talvez seja a hora de se pensar no assunto; se os seminários não se interessarem, acho que se é possível formar uma instituição virtual em que os alunos sejam ensinados na ortodoxia, e possam pensar, exercer e viver biblicamente.

    Outro ótimo tema abordado pelo irmão!

    Grande abraço!

    Cristo o abençoe!

    • Vanderson M. da Silva

      Obrigado, Irmão Jorge! Interessante essa sua sugestão de seminário pela Internet. Obreiros que trabalham em locais remotos do País, principalmente em campos missionários pioneiros, e que precisam treinar a outros, seriam grandemente beneficiados com uma medida dessas. Nesses trabalhos, manter uma estrutura que auxilie ao missionário cumprir adequadamente aquele mandado bíblico — “o que de mim ouviste diante de muitas testemunhas, entrega-o a homens fiéis, os quais sejam capazes de ensinar também a outros” (2Tm 2.2) — é um tremendo desafio. Ainda mais porque um obreiro desses, principalmente na fase de plantação da igreja, precisa ter um grau de envolvimento tamanho que lhe consome tempo e energia enormes.

      Um forte abraço fraternal em Cristo, meu irmão!

  • Jorge Fernandes Isah

    Vanderson,

    li os textos do Cheung e concordo com tudo o que ele disse. Seminários são importantes, mas não seriam fundamentais se as igrejas se preocupassem em formar seus ministros, obreiros, evangelistas, etc, e o próprio membro “comum” no ensino bíblico.

    Interessante os métodos adotados por ele, ou melhor, sugeridos para se avaliar um candidato a ministro; a maioria seria reprovada com louvor nesses quesitos, infelizmente; dada exatamente à fragilidade espiritual da maioria dos candidatos ao ministério, o que dirá dos membros “comuns”, aqueles que nem mesmo se consideram para tal.

    São textos muito bons, os quais recomendo a leitura.

    Abraços!

  • Mizael

    Vanderson,

    Tenho vivido essa experiência. Recentemente abandonei um seminário cuja teologia é heterodoxa. Tenho encontrado fortes resistências para voltar, e não sei se um dia voltarei. A fidelidade as Escrituras está em jogo.

    Graça e Paz
    Mizael Reis

    • Vanderson M. da Silva

      Muito me honra a sua participação aqui, Mizael. É, meu irmão, a realidade é essa aí mesmo, infelizmente! 😦 Abs!

      P.S.: Fiz uma pequena edição no seu comentário: o link do seu blog estava com um leve errinho de digitação, agora corrigido. 😉

  • Alexandre Galvão

    Sinceramente, não sei se seria necessário você adentrar as portas de um seminário. afinal de contas, vc já definiu o que é, e o que não é aprioristicamente. Já categoricamente rotulou Paul tillich de herege. vc parece já está preparado pra ser um um excelente fundamentalista.

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