A Aposta de Pascal

Blaise Pascal

Blaise Pascal, retratado por Philippe de Champaigne, 1656-57

No presente post gostaria de tratar de uma proposição enunciada pelo célebre filósofo e matemático francês Blaise Pascal (1623-1662), o qual conhecemos bem de nossos tempos de ensino médio (o seu famoso triângulo, as probabilidades etc., lembram?). Ela ficou conhecida como aposta de Pascal, e é longamente exposta em seu livro Pensamentos, no Artigo II: “O que é mais vantajoso: acreditar ou não acreditar na religião cristã”. Constitui uma espécie de argumento indireto a favor da existência de Deus, com o seguinte teor:

Caso a tua crença em Deus e na Bíblia esteja correta, terás o céu por recompensa;

Caso a tua crença em Deus e na Bíblia esteja errada, não terás perdido nada;

Caso a tua descrença em Deus e na Bíblia esteja correta, não terás perdido nada;

Porém, caso a tua descrença em Deus e na Bíblia esteja errada, teu destino será o inferno.

É importante ressaltar aqui, para se evitar conclusões precipitadas, que não é a religião institucionalizada que o sábio tinha em mente. Isto é, não é a adesão formal de indivíduos a uma igreja que ele contemplava aí. Pascal provinha de uma família que abraçara o jansenismo, movimento católico dissidente, de moral e disciplina rigorosas, cujo conceito de predestinação e graça, aliás, é muito próximo daquele do calvinismo (mais sobre o jansenismo, clicar aqui). Em seu entendimento, trata-se o cristianismo de relação pessoal com o Altíssimo.

Feita essa necessária ressalva, não obstante, tem-se apontado que tal argumento incentiva a adoção oportunista da religião cristã apenas para se estar em consonância com a existência de Deus. Deus que, talvez, até tenha em melhor conta um ateu ou agnóstico sincero e de vida moral do que um semelhante apostador. De fato, a Bíblia é categórica: “Ora, sem fé é impossível agradar-lhe; porque é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe, e que é galardoador dos que o buscam” (Hebreus 11.6). Por outro lado, o conceito escriturístico de fé salvífica não se ajusta à ideia de aposta: “Se com a tua boca confessares ao Senhor Jesus, e em teu coração creres que Deus o ressuscitou dentre os mortos, serás salvo” (Romanos 10.9). Por fim, falando em seu nome e no nome dos demais apóstolos, Pedro nos ensina qual a atitude que todo pecador que vem a Cristo salvificamente deve ter. Perguntado por esse sobre se queriam imitar a multidão e O deixarem, ele proferiu as palavras lapidares: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras da vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho de Deus” (João 6.68,69).

Porém, diga-se que mesmo entre os evangélicos há quem discorde disso e ainda julgue ser a aposta de Pascal uma estratégia apologética válida: confira aqui.

Se é verdade que há controvérsias entre os teólogos reformados acerca do valor dos chamados argumentos teístas (e.g., Robert L. Reymond e Vincent Cheung concordam quanto a serem eles falaciosos, mas o último ainda vê utilidade no emprego deles), creio que, quanto a essa que é na verdade uma variante de tais argumentos, não devemos endossá-la de forma alguma: clique aqui para uma análise e discussão aprofundadas das insuperáveis dificuldades teológicas inerentes à chamada aposta de Pascal, bem como de seus riscos espirituais. Para uma refutação filosófica, recomendo este texto aqui, em inglês.

Numa era de crescente incredulidade e irreligiosidade como a nossa, a qual, além disso, é caracterizada por um pragmatismo exacerbado, eu não ficaria surpreso se surgissem pregadores e denominações inteiras passando a lançar mão de tal argumento em seus planos “evangelísticos”. Se a Deus aprouver que este meu modesto artigo sirva de esclarecimento e alerta sobre a matéria, será um motivo de especial gratidão minha a Ele.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PASCAL, Blaise. Pensamentos. <http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/pascal.html>. Acessado em 14/02/2011.

REYMOND, Robert L. A New Systematic Theology of the Christian Faith. Nashville, EUA: Thomas Nelson Publishers, 1997. Págs. 131s.

CHEUNG, Vincent. Introdução à Teologia Sistemática. São Paulo, SP: Arte Editorial, 2008. Págs. 70ss.



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6 respostas para “A Aposta de Pascal

  • Nelson Ávila

    Mais um excelente post! Parabéns! Analisando a aposta de Pascal pelo ponto de vista negativo (onde, no final das contas o homem vêm a Deus em busca de vantagens), fico imaginando se a teologia da prosperidade não seria um plágio desavergonhado e inescrupuloso de tal argumento. Embora a intenção de Pascal fosse (ao que me parece) legitima e boa, levada as últimas conseqüências é extremamente semelhante a proposta dos gananciosos da prosperidade.

    Sola Gratia!

    • Vanderson M. da Silva

      Obrigado pelo elogio, irmão Nelson, que recebo como mais um incentivo para me aprimorar e me preparar cada vez melhor neste mister. Sim, a intenção original de Pascal era a melhor possível. Mais uma demonstração de que não se deve sancionar a visão teológica de alguém por causa da eventual sinceridade por trás dela. Abs!

  • Jorge Fernandes Isah

    Vanderson,
    faço coro com o Nelson: ótimo post!
    Sabe, é por essas e outras que não me aventuro a “convencer” os incrédulos com argumentos que não sejam bíblicos. Na roleta do Pascal, a maioria já escolheu a opção 4, pois está impossibilitada de escolher a opção correta.
    O que essas discussões primam é pelo elevar-se o ego, de tal forma que a piedade e misericórdia com a qual devemos ter ao aproximarmos de um incrédulo e falar-lhe de Deus, se transforma em uma mera competição de argumentos.
    Esse é um dos pontos do Cheung com os quais não concordo, e acho que nem ele mesmo concorda, pois não o vejo se envolvendo em debates com grandes ateístas mundo afora [rsrs]. Ao contrário, temos os evidencialistas [normalmente arminianos] empenhados em ganhar para a causa de Cristo os ateus com argumentos extra-bíblicos. Posso estar errado, pode até ser que esteja fora de foco, mas a inteligência, o raciocínio, a lógica e a razão servem para ordenar a mensagem evangelística, de tal forma que ela seja proclamada como a verdade absoluta, proveniente do Deus absoluto e bíblico.
    Grande abraço, meu irmão!
    Cristo o abençoe!
    PS: Hoje, em uma tacada, li três excelentes posts: o seu, o do Ednaldo [vi que já esteve por lá] e o do Marcos Muhlpointner [Música, Ciência e Teologia]. Ganhei o dia!

  • Anna

    Não basta ter ‘crenças’… até os demônios crêem… é preciso prática. Prática daquilo que se professa. Crer que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus Vivo, o Salvador e Consolador do Seu povo.

    Crer nisso e viver… brilhar Cristo em palavras, pensamentos e ações…

    Sola Gratia! Obg por mais este post.
    Anna

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