A Tribuna ou o Púlpito?

Posse dos deputados federais eleitos para a 54a. legislatura

Posse dos novos deputados federais. Créditos: Site da Câmara dos Deputados

Hoje é o dia em que tomam posse os 513 deputados federais eleitos para a nova legislatura. Destes, 71 compõem a chamada “bancada evangélica”, o que representa um acréscimo de 65% em relação aos 43 do período antecedente. A maioria desses congressistas, como é largamente sabido, ocupam posição de liderança em suas respectivas igrejas, isto é, ao menos em tese, exercem função pastoral, ainda que com títulos como bispo etc. Pelas Assembleias Legislativas e Câmaras de Vereadores Brasil afora a participação desses políticos é igualmente significativa, como sabemos.

O testemunho que essa crescente bancada vem dando ao longo dos anos, com as honrosas exceções de sempre, tem deixado muito a desejar. Para ficarmos apenas na esfera federal, em escândalos como os do “Mensalão”, da “Máfia das Ambulâncias”, dos “Anões do Orçamento” etc. sempre tem aparecido o nome de parlamentares a ela pertencentes, enxovalhando o nome de Cristo (de que se dizem portadores) aos olhos da sociedade brasileira, já tão carente de exemplos de autoridades que lhe sirvam de referência na integridade ética e moral.

Porém, não é sobre o péssimo testemunho desses supostos “irmãos” que quero tratar hoje aqui. O que gostaria de abordar hoje é um aspecto pouco debatido quando se discute a atuação dos políticos evangélicos: o fato de muitos deles deixarem a função pastoral que alegam exercer para atuarem em cargos eletivos. Afinal, não é no mínimo questionável que, num País onde a falta de obreiros em muitos campos missionários é gritante, tantos pastores pretextem ter chamado do Senhor e, no entanto, se lançarem candidatos para a carreira política? E o chamado ao pastorado que receberam (ou dizem ter recebido), não estaria sendo traído por eles? E, se estão traindo o chamado, estariam eles em condições espirituais para o próprio papel original de liderança eclesiástica?

No estado de São Paulo mesmo, a minha denominação batista se vê às voltas com a constrangedora realidade de igrejas e congregações fechadas por falta de obreiros — e, para maior constrangimento ainda, a situação é mais grave justamente na região onde se estabeleceram os seus primeiros missionários, vindos dos EUA, os quais organizaram em 1871 a primeira igreja batista em território nacional. E, passados tantos anos, ainda é grande o número de municípios sem nenhum trabalho batista em terra bandeirante. Tudo isso torna legítimo questionar, por exemplo, o porquê de um ministro do Evangelho jubilado, ou perto do jubilamento, ter ainda “lenha para queimar” na atividade política, mas não para dar alguma ajuda naqueles trabalhos, onde a contribuição dele seria de valor inestimável.

Portanto, salvo situações excepcionais, seria mais apropriado deixar que alguns dentre as próprias ovelhas (não gosto do termo “leigos”) se envolvessem na disputa e exercício de cargos políticos eletivos, e os pastores se ocupassem da “excelente obra” do episcopado (1 Timóteo 3.1), que é o seu mister (1 Pedro 5.1ss). E essa “excelente obra”, como nos lembra o autor de Hebreus, consiste em  velar pelas almas das ovelhas, como aqueles que hão de dar conta delas (Hebreus 13.17). Aos ministros fieis à sua vocação é dada a bendita promessa: “Quando aparecer o Sumo Pastor, alcançareis a incorruptível coroa da glória” (1 Pedro 5.4).

O grande número de pastores (ou “pastores”) lançando-se candidatos em cada período eleitoral é mais um indicador da triste situação espiritual em que se encontra hoje o movimento evangélico nativo. E é mais um motivo para encararmos com maior senso crítico o bordão “irmão vota em irmão”.

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6 respostas para “A Tribuna ou o Púlpito?

  • Tweets that mention A Tribuna ou o Púlpito? « Polemista Reformado -- Topsy.com

    […] This post was mentioned on Twitter by Polemista Reformado, Vanderson da Silva. Vanderson da Silva said: A Tribuna ou o Púlpito?: http://wp.me/p157xD-3y […]

  • Anninha

    A bancada evangélica no cenário político brasileiro veio para envergonhar o nome de Jesus Cristo. Poucos, ou nenhum, possui compromisso cristão e ético… que dizer do compromisso com o Reino, que é muito mais importante que o reino dos homens, pois transcende a vida aqui na terra.

    Se candidatos que usam o nome de Cristo (manchando-o) para se candidatarem é vergonhoso, que dizer de eleitores que usam o voto de forma irresponsável para com a causa social do Brasil?! A coisa tá feia, como dizemos nós.

    Mto boa abordagem, parabéns! 😉
    Anna Maria

  • Jorge Fernandes Isah

    Vanderson,

    faço suas as minhas palavras. Especialmente quanto a decisão de pastores ingressarem na carreira política. Ao meu ver, se decidirem-se por cargos políticos, devem-se afastar do ministério pastoral, e entregá-lo a outro que possa cumprir realmente o chamado do nosso Senhor.

    Não que o crente não deva se envolver em política, não é isso. Devemos e temos o dever de salgar e iluminar todas as esferas da vida, inclusive a pública, mas um pastor jamais pode abdicar do seu chamado ministerial para se envolver com outra atividade que lhe “roube” o tempo de cuidar da propagação do Reino e do cuidado com as ovelhas.

    Outro ótimo texto.

    Cristo o abençoe!

    Grande abraço!

    PS: Posso republicá-lo no “Guerra pela Verdade”?

    • Vanderson M. da Silva

      Deus o abençoe, meu irmão! Como você bem lembrou (e eu deveria ter mencionado isso no texto), no mínimo essa gente deveria se afastar do ministério pastoral e se dedicar ao cargo eletivo.

      Fique à vontade para republicar o meu artigo onde o irmão desejar! Um abraço!

  • Anninha

    Oh, yes! Nesse caso, obg pelo atendimento à solicitação feita! 😀

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