Neologismos teológicos portugueses que não vingaram

Créditos: FreePhotos.com

 

O estudante das Escrituras, conforme avança no conhecimento delas, vai assimilando nova terminologia teológica. Desta constam certas palavras que não estão na própria Bíblia (Trindade, espiração, aseidade † etc.), mas que representam ideias e conceitos genuinamente bíblicos, cujo conhecimento é indispensável quando se atinge certa etapa do estudo das doutrinas exaradas no Livro Santo.

Entretanto, em seus esforços de explanarem certas verdades escriturísticas, alguns teólogos propuseram novos termos que não lograram êxito na aceitação do povo cristão. Em particular, na nossa própria língua portuguesa, destaco duas propostas malogradas: a do verbo crear e derivados por Huberto Rohden, e a do substantivo pecadeiro por A. B. Langston.

O filósofo espiritualista e ex-padre jesuíta Huberto Rohden (1893-1981), natural de Tubarão (SC), mas radicado em São Paulo (SP), fez uma tradução do Novo Testamento grego iniciada quando ainda era estudante de filosofia na Universidade de Innsbruck, na Áustria. Eis a sua justificava da  necessidade do novo vocábulo crear:

“A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental — mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento.

‘Crear é a manifestação da Essência em forma de existência — criar é a transição de uma existência para outra existência.

‘O Poder Infinito é o creador do Universo — um fazendeiro é criador de gado.

‘Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.

‘A conhecida lei de Lavoisier diz que ‘na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma’, se grafarmos ‘nada se crea’, esta lei está certa, mas se escrevermos ‘nada se cria’, ela resulta totalmente falsa.

‘Por isso, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas”. [1]

Entretanto, como corretamente observa Napoleão Mendes de Almeida , “não devemos admitir a distinção entre crear e criar. A forma crear vem criar irregularidade na conjugação dos verbos em ear, obrigando a que se pronuncie crêo, crêas (em vez de creio, creias etc.), contra as regras de prosódia e grafia de tais verbos. O verbo criar é conjugado regularmente, e o mesmo se diga dos seus compostos procriar e recriar”. [2]

Já Alva Bee Langston (1878-1965), missionário e teólogo batista americano que foi professor do Colégio Batista e também do Seminário Teológio Batista do Sul, ambos no Rio de Janeiro, ao tratar da doutrina da imputação do pecado de Adão à posteridade desse, sugeriu o neologismo pecadeiro. Argumentava ele:

“A Bíblia ensina que, ao cair Adão, caiu com ele a raça inteira… [cita Rm 5.12] …a transgressão de Adão constituiu a todos os seus descendentes em pecadores, ou ainda melhor, ‘pecadeiros’. [aduz então Rm 5.15, 19 e Ef 2.3] (…) Depreende-se claramente das passagens citadas que há perfeita conexão entre o pecado de Adão e o da sua posteridade.

‘Quando se fala da imputação do pecado à sua posteridade, quer-se simplesmente dizer que Deus reconhece o homem como responsável por uma coisa que realmente lhe cabe. (…) Adão tornou-se pecador, e todos os seus descendentes, até hoje, nasceram e nascem pecadores. E Deus reconhece este fato e trata o homem como ‘pecadeiro’, filho de ‘pecadeiro’.

‘Precisamos, porém, reconhecer a diferença entre o pecado pessoal e o pecado da raça. Podemos distinguir estas duas classes de pecados. A raça pecou uma só vez, isto é, na queda; e o indivíduo, muitas vezes. (…) É por isso que Deus nos imputa o pecado da raça e não os pecados pessoais de Adão.

‘Por ocasião da queda, a raça era Adão e Adão era a raça. No ato livre de Adão a vontade da raça revoltou-se contra Deus. A raça humana pecou e caiu, e o pecado de Adão era o pecado da raça. Deus reconhece-nos ‘pecadeiros’, membros da mesma raça humana decaída, por se haver revoltado contra Ele”. [2]

Assim, ao contrário do cristão regenerado, que também é pecador, mas não está sob o poder do pecado, o pecadeiro é o pecador não-regenerado, que vive a pecar e tem prazer nisso. A sugestão é pertinente, e fico curioso em saber como ficaria essa palavra em inglês, a língua materna de Langston. Porém, o novo vocábulo inventado por ele também não pegou.

Em ambos os casos, apesar das tentativas mal-sucedidas, louve-se a iniciativa desses dois eruditos em buscar maior precisão na definição e conceituação das doutrinas bíblicas. No mínimo, deram valiosa contribuição para o debate sobre as questões que se propõem tratar.

 

† Corrigido em 28/01/2011 às 17h20.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] A Mensagem Viva do Cristo: Novo Testamento traduzido e anotado por Huberto Rohden. São Paulo, SP: Alvorada e Martin Claret, 1989. Pág. 5.

[2] Gramática Metódica da Língua Portuguesa. São Paulo, SP: Editora Saraiva, 1997. Pág. 264.

[3] Esboço de Teologia Sistemática. Rio de Janeiro, RJ: Casa Publicadora Batista, 1959. Págs. 169, 170 e 175.

Anúncios

5 respostas para “Neologismos teológicos portugueses que não vingaram

  • Nelson Ávila

    Muito interessante Vanderson! De fato são curiosidades que para mim eram totalmente desconhecidas. Se algum dia ouvir falar de “crear” ou “pecadeiro” já saberei a que se refere. Obs: Só achei algo extranho em seu texto: Você disse: “certas palavras que não estão na própria Bíblia (Trindade, espiração, expiação etc.)”, todavia, embora de fato não encontremos “Trindade” ou “espiração” (apenas “inspiração” no que se refere a 2 Ti 3:16), a palavra “expiação” aparece em Ex 29:33, 36, 37; 30:10, 15, 16; 32:30; Lev 1:4; 4:20, 26, 31, 35; 5: 6, 10, 13, 16, 18; 6:7, 30; 7:7; 8:15, 34; 9:7; 10:17; 12:7, 8; 14:18-21, 29, 31, 53; 15:15, 30; 16:6, 10, 11, 16, 17, 18, 20, 24, 27, 30, 32, 33, 34; 17:11; 19:21-22; 23:27-28; 25:9; Num 5:8; 6:11; 8:12, 19, 21; 15:25, 28; 16:46-47; 25:13; 28:22, 30; 29:5, 11; 31:50; 35:33; Deu 32:43; 2 Sam 21:3; 1 Cr 6:49; 2 Cr 29:24; Nee 10:33; Sal 40:6; Eze 45:15, 17, 20… Portanto, não entendi a inclusão desta palavra entre as demais.

    Deus o abençoe e o dê cada vez mais capacidade para nos presentear com bons textos como os que você tem nos apresentado até aqui.

    Soli Deo Gloria!

    • Vanderson M. da Silva

      Obrigado pelo elogio e pela correção, Irmão Nelson! Sim, de fato expiação aparece nas Escrituras… Desculpe-me pelo deslize. Fiz a confusão porque, ao traduzir uma obra sobre o calvinismo (“The Five Points of Calvinism”, de Herman Hanko, Homer Hoeksema e Gise J. Van Baren), um dos autores menciona que o termo inglês “atonement” (“expiação” em português), que por vezes aparece na versão King James da Bíblia, na verdade foi uma inserção dogmática, e que o original bíblico seria “propiciação”, “reconciliação”, “resgate” ou “aquisição”. Evidentemente, isso também vale para as nossas traduções vernáculas das Escrituras.

      Correção efetuada!

  • Nelson Ávila

    Obrigado pela resposta e explicação.

    Deus o abençoe!

  • Anninha

    Excelente contribuição linguística. Creio que pastores e pregadores da Palavra de Deus devem ter todo cuidado e zelo no bom uso linguístico para evitar más concepções dentro do Rebanho de Deus. Então, quando mais boa informação obtiverem (como as que vc postou), melhor!

    Abraço ao nobre blogueiro. 😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: