Cheung e a ordenação pastoral

A graça e a paz do Senhor Jesus aos irmãos leitores!

No texto de hoje questiono a ousada posição do teólogo sino-americano Vincent Cheung em seu artigo Ordenação e Tradição Humana (q.v.), no qual defende não haver nada na Bíblia em contrário a uma ordenação que seja coisa entre um irmão, convencido do chamado e preparo para o pastorado, e o Deus Altíssimo. Cheung chega mesmo a tachar de tradição humana a posição corrente nas denominações cristãs históricas a respeito da matéria, condenando-as fortemente. Nega, assim, ter respaldo escriturístico a exigência de a Igreja exercer papel no processo de ordenação ministerial.

É verdade sim que houve períodos na História Sagrada em que, dada a grande corrupção da classe sacerdotal no Antigo Israel, o Senhor levantou homens de fora da tribo de Levi, como na época dos Juízes e, posteriormente, no profetismo iniciado por Elias, para fazer a mediação entre Ele e Seu povo. Fora do período abrangido pelo relato bíblico, temos outro exemplo no tempo da Reforma Protestante. Nessa época, com o cristianismo professante, em larga medida, infectado pela chaga da apostasia e se opondo ferozmente às vozes que contra ele se erguiam, homens de fora do clero corrompido, como Calvino, foram constituídos líderes para conduzir a Igreja de volta à Sã Doutrina e libertá-la do fermento do legalismo e da superstição romana.

Poderíamos também incluir aí, certamente, o que se verifica em sociedades totalitárias do tipo stalinista, com severíssima perseguição à manifestação religiosa (como ainda ocorre na Coreia do Norte), onde não se poderia cogitar em uma ordenação de indivíduos ao ministério pela Igreja, posto igualmente não haver condições mínimas para o funcionamento normal dessa.

Todavia, no atual Ocidente, apesar dos muitos pesares, não consigo perceber como alguém não conseguiria espaço ao menos em alguma igreja séria e ortodoxa (que, gostemos ou não, na atualidade sempre estará num contexto denominacional) para exercer os dons que Deus lhe deu, a ponto tal de se cogitar uma ordenação efetuada entre a pessoa e Ele. Afinal, isso diz respeito também ao próprio propósito de Deus no estabelecimento de Sua igreja (Mt 16.18,19), e a ela é que são dados pastores (Ef 4.11). Pastores que, é bom lembrar, devem estar sujeitos a instâncias da igreja (1Tm 5.19-22): Calvino e outros reformadores se colocavam debaixo dessas, como sabemos.

Além disso, não pode haver dúvidas de que as epístolas de 1 Timóteo e Tito, ao tratarem da separação/ordenação de alguém para o ministério, têm em vista o contexto eclesiástico. E será que é à toa que, justamente em 1 Tm 3, ao tratar dos critérios exigidos para os postulantes ao episcopado (e que deveriam nortear o jovem ministro Timóteo na escolha deles), o apóstolo evoque isto no v. 15: “… para que saibas como convém andar na casa de Deus, que é a igreja de Deus vivo, a coluna e firmeza da verdade”? Não constitui tudo isso em evidência de que é preciso a ordenação pela igreja?

É louvável a preocupação do teólogo com eventuais acréscimos ou desvios da doutrina promovidos por denominações. Por mais bem-intencionados que sejam, são sempre perigosos. Mas isso de maneira alguma sanciona tal postura de independência, e o que Vincent Cheung escreve ali não serve de prova conclusiva:

“Marcos 9 nos diz que um homem estava expulsando demônios em nome de Jesus, mas os discípulos disseram-lhe para parar de fazê-lo por não ser um deles. Jesus respondeu: “Não o impeçam. Ninguém que faça um milagre em meu nome, pode falar mal de mim logo em seguida, pois quem não é contra nós está a nosso favor”. Quem ordenou a essa pessoa? Por mãos de quem Deus conferiu dons espirituais a esse homem? Nem mesmo Jesus na Terra fez isso. Mas Deus no céu o fez, e aparentemente sem qualquer agência ou aprovação humana.”

Será que não foi mesmo Jesus quem conferiu dons a tal homem? Não há registro bíblico confirmando, mas também não o há negando. O trecho de Mc 9.38-40 não vai além do relato de que havia alguém de fora do círculo dos Doze que operava milagres (o próprio Cheung critica duramente quem extrapola o texto claro das Escrituras e mistura a esse suas próprias ideias, não?) Inferir daí que seja legítima uma ordenação como a que ele julga ser lícita é querer dizer mais do que o trecho em tela diz. Por outro lado, os episódios de Mc 14.14-16 e Lc 19.28-34 dão a entender que o Mestre mantinha sim contato com pessoas que os Doze desconheciam, o que é perfeitamente compreensível e natural (isso é coisa pra lá de corriqueira nas relações humanas).

Ademais, espanta-me que o próprio Cheung, em outro livro seu, reconheça que há mesmo passagens nos Evangelhos que devam ser entendidas à luz do contexto específico do ministério de Cristo na terra. Tome-se este exemplo de “Piedade com Contentamento”:

“Voltando à pessoa em nossa passagem, Jesus lhe diz: “As raposas têm suas tocas e as aves do céu têm seus ninhos, mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça” (Lucas 9:58). Não podemos saber precisamente o que esse indivíduo tinha em mente quando se ofereceu para seguir a Jesus, mas parece que ele não estava preparado para adotar o estilo de vida que era imposto para alguém ser um discípulo de Jesus naquela época. Jesus lhe diz que não tem um lar próprio em suas viagens, e que deve depender da hospitalidade e do apoio de outros. Tornar-se um seguidor de Jesus necessariamente significaria sujeitar-se a si próprio a essa difícil maneira de viver.”

Para concluir, termino o meu artigo com aquele bem conhecido refrão de Apocalipse 2 e 3: “Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas”. Louvado seja nosso gracioso Deus, que ainda usa as igrejas, mesmo que imperfeitas e falhas, como portadoras de Sua mensagem para os fiéis!

Anúncios

6 respostas para “Cheung e a ordenação pastoral

  • Nelson Ávila

    Gosto muito dos textos do Cheung. Tenho sua “introdução a Teologia Sistemática” (a qual sempre estou a consultar e deleitar-me), “Reflexões sobre as questões últimas” (com argumentações irrefutáveis!), “apologética no diálogo”, sem falar de outros dos quais disponho em e-book… Todavia todos nós, seres humanos imperfeitos e carentes da glória de Deus, somos passíveis de falhas e Deus nos consola em nossas falhas ao nos revelar que mesmo homens tão extraordinariamente usados por Ele se assemelham a nós nisto também.

    Outro bom texto!

    • Vanderson M. da Silva

      Grato pelo elogio, Ir. Nelson! Encaro como mais um incentivo para que eu continue a me aprimorar como blogueiro cristão na linha reformada. Também aprecio os textos de Cheung, e também dou a minha contribuição para a difusão de sua literatura em nosso idioma: “Introdução à Teologia Sistemática” foi traduzido pelo Felipe Sabino e por mim, por exemplo. Evidentemente, como qualquer um de nós, ele também está passível de cometer deslizes em sua teologia, como você bem observou em seu comentário. Louvado seja Deus por Sua maravilhosa graça!

  • Jorge Fernandes Isah

    Vanderson,

    ótima análise ao pensamento do Cheung. Concordo com você em número, gênero e grau. Cheung errou quanto à autoridade eclesiástica na ordenação e mesmo na disciplina pastoral, pois a igreja foi investida desses poderes pelo próprio Senhor, o qual as rege como o cabeça.

    Grande abraço!

    Cristo o abençoe!

  • Raúl G. Pérez

    una pregunta mi hermano, ese el de la foto. es él (Vincent Cheung)?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: