Reflexões para o Dia da Bíblia (2): As bíblias comentadas

Oração

Créditos: FreeDigitalPhotos.net

A graça e a paz do Senhor Jesus aos amados irmãos!

Neste ‘post’, quero tratar sobre as edições da Bíblia com notas de rodapé explicativas, as quais vêm cada vez mais conquistando o público evangélico. O mercado (é isso mesmo, mercado) já oferece cada vez mais opções para atender a demanda dos diversos segmentos, proporcionando grandes lucros às editoras. Definitivamente, foi deixado para trás um tempo em que a publicação desse tipo de literatura estava fortemente imbuída do idealismo de se difundir conhecimento teológico e fazer apologética (v.g., Bíblia de Genebra, Bíblia Scofield, Bíblia de Jerusalém). Não é difícil entender a predileção desse povo por aquelas, ainda mais na época em que vivemos, onde a cultura vigente é a de que as coisas podem ser obtidas just at one click, na velocidade semi-instantânea da internet.

Assim, muitos se espantariam se lhes fosse contado sobre a necessidade de labor, paciência, tempo para meditação e atitude de reverência e temor, exigências para se abordar devidamente o Livro Santo (coisas que, por seu turno, só vem com oração e súplicas por iluminação do Espírito). Muito mais fácil, cômodo e prático é consultar as notas para se obter a mensagem do texto escriturístico lido, mesmo ao custo de se ficar viciado e perigosamente dependente delas: afinal, as notas de rodapé são produtos totalmente humanos, logo, não infalíveis e destituídas de autoridade divina. Aliás, certa bíblia comentada de nossos dias teve suas notas condenadas por heréticas pela própria denominação proprietária da editora que a publica.

A esta altura, é importante esclarecer que, a princípio, não sou contra bíblias comentadas nem comentários bíblicos. Em ambos se podem achar subsídios e insights muito úteis ao preparo de um bom sermão, por exemplo. E a Bíblia de Genebra, com suas notas explicativas de rodapé, foi de grande utilidade durante a Reforma Protestante para disseminar as doutrinas da graça e refutar as heresias e superstições medievais. Como comprova a história, aquela edição serviu para estimular o estudo da Palavra de Deus e firmar os fieis na Sã Doutrina, não o contrário, como se verifica na febre atual por bíblias anotadas.

Por outro lado, o estudante que quer se aprofundar no conhecimento do Livro Santo encontra muitos dados e informações valiosos em atlas, concordância e dicionário bíblicos, recursos extrabíblicos mas que, devidamente explorados, podem lhe proporcionar progresso real nessa gloriosa tarefa.

Apesar de aparentemente fugir do assunto, quero aproveitar o ensejo para tratar também da Bíblia de letras vermelhas (i.e., com as palavras de Jesus destacados nessa cor). A respeito delas, Vincent Cheung sabiamente escreveu: “Algumas pessoas tratam as palavras de Jesus como se constituíssem uma Bíblia dentro da Bíblia, ou como se fossem especialmente confiáveis e autorizadas. Se essa gente faz isso conscientemente é porque talvez suponha que isso seja correto e bom, e que isso representa uma atitude de reverência especial ao nosso Senhor. Contudo, dado que o ensino da própria Bíblia é que ‘Toda Escritura é o sopro de Deus‘, honrar de uma maneira especial as palavras de Jesus é na realidade uma negação da inspiração da Escritura” (O Ministério da Palavra. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2010. Pg. 23). Acrescento eu que, ao contrário do que muitos imaginam, tais letras vermelhas na verdade atrapalham a leitura do texto bíblico.

Para finalizar, gostaria de deixar esta citação de Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) para reflexão dos que estudam ou querem estudar a Bíblia. Comentando sobre sua abordagem do Livro quando ainda era incrédulo, ele escreveu: “Determinei, por isso, dedicar-me ao estudo da Sagrada Escritura, para a conhecer. Vi então uma coisa encoberta para os soberbos, obscura para as crianças, mas humilde ao começo, sublime à medida que se avança e velada com mistérios. Não estava ainda disposto a poder entrar nela ou inclinar a cerviz à sua passagem. O que senti, quando tomei nas mãos aquele livro, não foi o que acabo de dizer, senão que me pareceu indigno compará-lo à elegância ciceroniana. A sua simplicidade repugnava ao meu orgulho e a luz da minha inteligência não lhe penetrava no íntimo”. (Confissões. São Paulo, SP: Editora Nova Cultural, 1999. Pg. 84).

ATUALIZAÇÃO (16:42): Esqueci de mencionar as referências marginais que algumas bíblias trazem (e.g., a bem conhecida Almeida Revista e Corrigida da IBB), outro recurso útil ao estudante da Palavra. Esse também não pode dispensar o uso de dicionários de português para elucidar o sentido dos termos que lhe forem desconhecidos, para o bom aproveitamento de sua leitura.

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5 respostas para “Reflexões para o Dia da Bíblia (2): As bíblias comentadas

  • Nelson Ávila

    Muito bom seu texto Vanderson. É bem verdade que muitas vezes, os comentários no rodapé podem atrapalhar mais que ajudar; só para citar um exemplo: A Bíblia de Estudo Pentecostal traz um estudo referente ao vinho onde diz que na época do Novo Testamento o vinho não tinha teor alcoólico. Fica a pergunta no ar: Por qual motivo Paulo escreve aos coríntios criticando a forma como estavam praticando a ceia do Senhor, pelo fato de que muitos se embriagavam por excesso de vinho?

    • Vanderson M. da Silva

      Obrigado, Ir. Nelson. Sobre isso que você mencionou, é curioso como em certos arraiais há tanta preocupação com a questão do vinho e do fumo e não com a gula, por exemplo, a qual é pecado categoricamente condenado nas Escrituras: Gálatas 5.21.

  • Jorge Fernandes Isah

    Vanderson,

    Quando me converti, comprei várias Bíblias de Estudo. E, certa vez, me peguei lendo primeiro o comentário, para depois ler o texto bíblico. Decidi me livrar delas, algumas vendi, outras presenteei, ficando apenas com a Apologêtica que pouco uso.

    Com os comentários bíblicos aconteceu a mesma coisa, então, dei-lhes o mesmo destino. Procurei cercar-me de dicionários bíblicos, concordância exaustiva da ACF, Bíblias com referências cruzadas e nas línguas originais, a fim de prosseguir em meus estudos. Falta muita coisa, léxicos, analíticos, interlineares, mas com o tempo adquirirei-os. Para o que me proponho a fazer no momento, o que já tenho é suficiente. Portanto, posso garantir que o “pequeno manual” de estudo bíblico que você indicou, funciona. Sem nos esquecer nunca de que o Espírito Santo é quem nos guia, orienta e nos dá sabedoria para compreender o Evangelho. E de que é nossa obrigação, como salvos, conhecer e compreender a Verdade, uma vez nos dada por Deus.

    Grande abraço!

    Cristo o abençoe!

    • Vanderson M. da Silva

      Obrigado, Ir. Jorge! Não sou tão radical assim com comentários, afinal, sou o tradutor de três deles, de autoria de Calvino. Mas, se o crente percebe que está deixando de lado a Bíblia e se viciando neles, então o melhor a se fazer é tomar mesmo uma atitude drástica como essa sua. Outro abraço!

      • Jorge Fernandes Isah

        Vanderson,

        Para deixar claro, não desprezo os comentários, pelo contrário, há excelentes, ainda mais os de Calvino. No meu caso, estava se tornando quase um “vício” ler a Bíblia à “luz dos comentários”. O ideal é que se medite no texto bíblico, uma, duas, três, quantas vezes for necessário, correlacionando-o com outros textos bíblicos [por isso uma Bíblia com referências cruzadas é um excelente instrumento], para, no final, se não alcançar o entendimento, buscá-lo nos comentários. Se possível, em mais de um.

        Como sou meio ansioso, não esperava o “tempo” do Espírito, o qual agora respeito, procurando meditar e refletir sobre o que estou lendo, mesmo que demore até mesmo semanas para digeri-lo.

        Mas quem tem a disciplina a qual me referi, fará um bom uso dos comentários; e, ao meu ver, melhores por serem mais detalhados do que as notas de rodapé das Bíblias.

        Abraços.

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