Confissão auricular protestante?

Exclamação

Créditos: bigfoto.com

Amados irmãos, a graça e a paz do Senhor a todos vocês!

E cheguei a mais um ‘post’. Criar um blog é fácil, mantê-lo atualizado é que é difícil, como os meus colegas blogueiros bem o sabem. Oro para que Deus continue a me dar graça para levar adiante este espaço e usá-lo para o serviço dEle.

Bem, hoje gostaria de tratar de um assunto que parece incontroverso no meio evangélico: a confissão de pecados. Em oposição ao dogma católico romano da confissão auricular (i.e., o fiel deve confessar seus pecados a um sacerdote, visto como mediador entre o ser humano e o Altíssimo, numa interpretação abusiva de Jo 20.22,23), defendemos que o crente deve confessar seus pecados a Deus somente, pois é o claro ensino da Sua Palavra, nossa autoridade final: ver Js 7.19; 2Sm 24.10; Sl 32.5; Jr 3.13; Dn 9.4-23; Os 5.15; Lc 15.21; 18.13; 1Jo 1.9 etc.

Reparem que escrevi que o assunto “parece incontroverso no meio evangélico”. Sim, porque há alguns evangélicos que defendem uma espécie de “confissão auricular protestante”. Dizem que, se é verdade que aquele ensino romanista deve ser rejeitado, por outro lado, sustentam que os protestantes também têm errado ao fecharem os olhos para o suposto ensino bíblico sobre o dever de os crentes confessarem os pecados UNS AOS OUTROS. Para tal, apelam para Tiago 5.16 e até a uma contestada tradução de Mt 18.15ss.

Analisemos então os textos bíblicos aduzidos em apoio a tal doutrina.

No primeiro, lemos textualmente: “Confessai as vossas culpas uns aos outros, e orai uns pelos outros, para que sareis. A oração feita por um justo pode muito em seus efeitos” [ACF]. O problema aqui é ignorar o contexto todo em que o versículo se encontra. Afinal, Tiago escreveu a comunidades de cristãos que guerreavam e pelejavam entre si (4.1-12). Em outras porções da Bíblia lemos que por vezes a doença é um castigo infligido por Deus como retribuição ao pecado (Dt 28.21; Jo 5.14; 1Co 11.30), e parece que tal era o caso daqueles crentes. Assim, como forma de os disciplinar, levando-os ao fim das lutas internas e à reconciliação mútua, foi imposta uma condição para a oração por cura ser ouvida (“para que sareis”): que cada um admitisse sua culpa e mal perpretado contra o outro, buscando o perdão de quem ofendeu. E mais, tal oração também deveria ser mútua (“uns pelos outros”).

Em suma, os pecados que se tem em vista aqui são aqueles que o crente eventualmente comete contra seu irmão; aliás, segundo o Commentary Critical and Explanatory on the Whole Bible, de Jamieson, Fausset e Brown, “faltas” ou “ofensas” é melhor tradução do original grego do que “pecados”, que aparece em algumas versões.

Já a outra passagem, em Mateus, conforme Paul M. Lederach (Uma Terceira Opção. Campinas, SP: Associação Evangélica Menonita, 1993. Págs. 59s), seria melhor traduzida sem a expressão “contra ti”, consoante o que ele afirma ser “os melhores textos gregos”. Assim, Mt 18.15-20 seria mais um apoio à necessidade de os crentes confessarem seus pecados uns aos outros, sejam tais pecados perpretados ou não contra o(s) irmão(s).

Contudo, lendo o capítulo dezoito do primeiro Evangelho, onde se acha aquele trecho, percebemos que a supressão de “contra ti” é injustificável, pois é o próprio contexto que impõe tal expressão. Basta ler Mt 18.23ss (a parábola do credor incompassivo) para perceber que o Senhor Jesus está justamente tratando do perdão que devemos dar àqueles que nos ofendem. Na verdade, quem insiste naquela tradução inusitada de Mt 18.15 para reforçar a supracitada interpretação de Tg 5.16 o faz para não ser acusado de fazer má exegese, ao tentar estabelecer doutrina baseando-se em um versículo só.

Além de antibíblica, o perigo dessa modalidade de confissão auricular é óbvio, pelo seu grande potencial de minar a saúde espiritual de qualquer igreja ao ensejar ressentimentos, menosprezos, suspeitas, cinismos e até chantagens. Nada contra um irmão, em certos casos (v.g., busca de ajuda para vencer vícios ocultos que têm comprometido a comunhão com Deus e a alegria da salvação), confessar seus pecados a outro piedoso e maduro o suficiente para ajudá-lo. Aliás, é aconselhável que o faça. Mas, como expus acima, as Escrituras não dão respaldo nenhum a tal doutrina, e essa é a razão de ela, historicamente, não ter encontrado acolhida entre o povo de Deus.

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9 respostas para “Confissão auricular protestante?

  • Jorge Fernandes Isah

    Vanderson,

    Há, em algumas igrejas, a idéia de que se tem, obrigatoriamente, de confessar os pecados a outros irmãos, e entendo, como você, que isso não deve ser regra, como um mandamento a se seguir, pois a própria Escritura nos alerta que há somente um mediador entre Deus e os homens: Cristo.

    Também ir-se ao outro extremo de jamais, em hipótese alguma, procurar auxílio e comunhão com irmãos sábios e tementes a Deus na luta contra o(s) pecado(s), é outra tolice. Deus utilizará a instrumentalização humana para realizar a sua vontade, e a vontade de Deus é que, no corpo, cada um sustente ao outro, em especial aqueles irmãos fracos na fé [o que também é discipulado].

    Grande abraço!

    Cristo o abençoe!

  • Nelson Ávila

    Vanderson, muito bom seu texto. Gostei! A confissão auricular foi historicamente utilizada pelo romanismo para manipular o povo e nunca para confortá-lo e, hoje, se estivesse em voga no meio “evangélico” também, como não serviria ao mesmo propósito, com tantos “apóstolos” e “bispos” ávidos de poder?

    • Vanderson M. da Silva

      Obrigado pela visita e pela opinião, Irmão Nelson! Lembro-me de uma piada que um irmão contou aqui em minha igreja. Foi a respeito de um grupo que praticava esse tipo de confissão aí abordada. Em uma das reuniões do grupo, depois de cada um denunciar os próprios “podres” para os outros, chegou a vez do último, que então disse: “O meu pecado é que eu estou com uma vontade louca de sair daqui e contar para todo mundo o que acabei de ouvir”.

  • THIAGO SANCHES

    Caro Vanderson, boa postagem! Estive passeando no blod de meu amigo Nelson Ávila e tiver o prazer esse espaço:”Polemista Reformado”. Bom, é verdade esta questão tratada no seu “blog”, que pena que através dos séculos uma espécie de tabu ficou nas mentes das pessoas. Estive lendo “Era dos Gigantes” de Justo Gonzalez, e ele argumentando sobre a influência romana na Igreja, ele faz uma seguinte declaração: “A Igreja continuamente volta aos tempos de Constantino, apesar de está séculos depois”. Hoje, olhando seu artigo entendo bem isso. Precisamos se olhar para as Escrituras e observa o que de fato Cristo nos ensina. Principalmente em questões práticas como “Confissão de PECADOS uns aos outros”…
    Abraços de THIAGO SANHES!
    (cristonasescrituras.blogspot.com).

    • Vanderson M. da Silva

      Muito obrigado pela opinião e pela visita, Thiago! Sim, de fato há arraiais evangélicos onde ainda há muita influência do romanismo. Você talvez não tenha ouvido falar dele, mas no passado havia no meio batista um polemista chamado Aníbal Pereira Reis, que denunciava a existência daquela influência no meio pentecostal: caso da “água orada”, muito semelhante à água benta católica, por exemplo.

      Outro abraço!

  • THIAGO SANCHES

    Desp pelos erros de português, esse “configuração do pc” está triste. rsrs

  • Anna Barros

    Mto bom o seu texto. Acresço que o texto de Mateus realmente não tem NADA A VER com confissão auricular mas TUDO A VER com disciplina eclesiástica, aliás, um tema bastante negligenciado pelas igrejas da atualidade, como se não fossem um corpo, mas coisas distintas!

    Abs,
    Anninha

    • Vanderson M. da Silva

      Obrigado, Anninha! De fato, a disciplina eclesiástica anda esquecida nas igrejas. E é uma missão que Cristo delegou a elas: quando se fala em missão da igreja, logo se lembra de evangelismo, mas se esquece daquela. Mas pergunto: Como comunidades cujos membros dão mau ou péssimo testemunho podem querer proclamar a mensagem de salvação para o pecador?

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