Reflexão para a Páscoa: Filmes sobre a Paixão de Cristo

Tróleibus russo

Tróleibus russo com propaganda do filme "Jesus". Créditos: Dave Siberia (sob Creative Commons).

Chegamos a uma das duas épocas do ano em que o Ocidente celebra, de forma distorcida que seja, sua herança cristã, isto é, a Semana Santa. A outra, claro, é o Natal. Obviamente, em ambas as ocasiões Jesus Cristo tem que dividir a atenção, respectivamente, com o coelhinho da Páscoa e o Papai Noel. “Dividir a atenção” é generosidade minha, porque, na verdade, tanto num como no outro caso, é manifesto que essas duas figuras (uma, oriunda do primitivo paganismo europeu; a outra, do paganismo moderno de Mamom) é que são centrais mesmo, infelizmente. Ainda assim, tais datas constituem brechas proporcionadas pelo homem dos dias correntes que podem e devem ser mais bem aproveitadas para a evangelização por parte das igrejas e indivíduos comprometidos com a proclamação das Boas Novas.

Nesse sentido, nesses tempos em que se relembra a paixão e morte de Jesus Cristo, alguns cristãos sinceros e pragmáticos têm entendido que filmes a respeito da Sua vida e/ou crucificação são auxílios valiosos para se alcançar os incrédulos com a mensagem de salvação. E, além de promoverem a exibição daqueles, também se alegram com o fato de a TV secular transmitir tais películas, entendendo que, mesmo por vias tortas, também se trata de um meio válido de se divulgar mais acerca do Senhor e de sua obra pelos pecadores. Todavia, respeitosamente discordo desses irmãos, e tenho que concordar com este comentário de Charles Terpstra sobre o aclamado “A Paixão de Cristo” (2004), de Mel Gibson:

“‘A Paixão de Cristo’, filme de Mel Gibson, objetiva contar, por meio de personagens e imagens dramáticas, a narrativa bíblica do sofrimento de Jesus Cristo. Com detalhamento gráfico ele aponta ao leitor o imenso e incrível sofrimento físico que Jesus suportou nas últimas doze horas de sua vida.

A maioria dos cristãos e igrejas professos estão excitados com o filme e com as perspectivas de evangelizar o mundo. Muitos líderes evangélicos e católicos romanos saúdam-no como a maior oportunidade de difundir o evangelho desde a era apostólica! Agora, finalmente, a mensagem do sofrimento e morte de Cristo pode alcançar os perdidos e ganhá-los para o Senhor! O povo tem que ver tal filme! Será uma experiência transformadora de vidas!

Nós, porém, não estamos excitados. Esse filme tem muitas incorreções e adições que distorcem o verdadeiro relato do sofrimento de Cristo. (Afinal de contas, trata-se de uma película católica romana endossada pelo papa.) Na verdade, condenamos o filme e instamos a todos os verdadeiros cristãos para que NÃO o vejam. Fazemos isso por três grandes motivos.

Primeiro, é blasfemo retratar o sofrimento e morte de Cristo dessa forma. Cremos que Jesus Cristo foi não apenas um homem real, mas também Deus verdadeiro, o eterno Filho de Deus em carne humana! Ninguém pode retratar a esse Cristo, seja por meio de um ator, seja por meio de qualquer imagem física. Agir assim é blasfemar ao Filho de Deus e negar Seu grande poder e glória. Isso é o que Deus quer dizer por meio do segundo mandamento que deu — nenhuma imagem de escultura dEle, e isso inclui Seu Filho.

Segundo, o filme fracassa em revelar o coração do evangelho, a expiação de uma vez por todas operada por Cristo e Seu sacrifício propiciatório. O sofrimento dEle não foi meramente físico; foi principalmente espiritual. Foi um sofrimento na alma e no corpo pela ira eterna de Deus por causa dos pecados de Seu povo eleito. Desse ponto de vista o sofrimento de Cristo não deve simplesmente provocar sentimentos de compaixão por ele. Deve quebrantar nossos empedernidos corações e nos levar ao arrependimento e à fé nEle!

Terceiro, o filme não é o meio que Deus ordenou para a salvação dos pecadores. Decerto somos a favor da mensagem da paixão de Cristo ser proclamada ao mundo. Porém, devemos usar o método de Deus para realizar isso: a pregação de Cristo crucificado através de Seu ministério oficial instituído na igreja. Isso é que é para ser levado a termo pela igreja, e o próprio Cristo a chamou para tal (Mt 28.20). É tolice para o homem nesses dias modernos, de alta tecnologia e dependente do que é visual, tal como era tolice nos dias dos apóstolos. Contudo, a pregação é poder e sabedoria de Deus para a salvação daquele que crê, seja judeu, seja gentio (1Co 1.18-24)”. (para acessar o texto original, clique aqui.)

Como se não bastasse, há outros problemas em se retratar a paixão de Cristo da maneira como essas produções cinematográficas o fazem. Apesar de originalmente não ter tais filmes em vista aqui, são oportunas estas sábias palavras de W. C. Taylor (‘Doutrinas’. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1952. Págs. 101 e 102):

“O corpo de Jesus era parte de sua personalidade, com a mente, a alma — o espírito humano, enfim, e sua natureza divina. Teve seu lugar na morte redentora — lugar proporcional ao lugar que ocupava na sua pessoa e vida. É importante, mas não para eclipsar o resto de sua pessoa e natureza. ‘Levando ele mesmo em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro … e pelas suas feridas fostes sarados’, 1Pe 2.24. Notai o contraste: ‘ele mesmo’, a pessoa total, ‘em seu corpo’, naturalmente a parte de sua pessoa que seria a esfera da morte, a qual era, por sua vez, o oferecimento de si mesmo a Deus, como oblação e sacrifício por nossos pecados, com todo o infinito valor de sua pessoa.

O sofrimento físico de Jesus era pouco, em toda a sua vida. Morreu aos 33 anos, em pleno vigor de uma encarnação perfeita. Não consta nem dor nem doença em sua vida, depois da infância. As dores e doenças que ele sentiu eram alheias, ‘as nossas dores e enfermidades’, Is 53.4. Também nunca recebeu, que eu saiba, golpe de dedo humano contra si, até a manhã do dia do Calvário. Banqueteara com os seus até meia-noite. O Getsêmane não durou senão pouco tempo. Era sofrimento intenso mas breve. Não o reduziu à magreza e miséria das pinturas medievais. A coroa de espinho, os açoites e flagelos, os cravos nas mãos e pés, a febre, a sede, o sofrimento moral, a vergonha que ele ‘desprezou’, Hb 12.2, fazem uma agonia tremenda, mas terminou no mesmo dia em que começou. Há homens no campo de batalha e nos hospitais, e nos casos de câncer, artrite e outras moléstias, que sofreram e sofrem, num só dia, muito mais, fisicamente, do que Jesus sofreu no dia do Calvário. E pensai nas desumanas torturas usadas na ‘liquidação’ de muitos em terras totalitárias. O Novo Testamento não exagera esses sofrimentos, nem lhes dá a suprema virtude na morte que nos redime.

E não são apenas as seitas católicas que dão ao sofrimento corpóreo de Jesus valor desproporcional. Protestantes que lhes acompanham na ‘Semana Santa’ e nas suas superstições e que pregam como o clero, são réus da mesma falsificação do cristianismo e exploração do sentimentalismo fácil do povo. Fui ouvir famoso pregador metodista na minha terra, em 1945. Ele pregou sobre a cruz. De tal maneira pintou seus horrores físicos, que um soldado forte fugiu da reunião. Em frente de mim estavam sentadas umas senhoras. A mão de uma dessas ouvintes segurava o encosto do banco e me parecia que suas unhas pintadas iam cravar-se na madeira do banco. Temia eu que ela tivesse um ataque ali. Acho detestável semelhante pregação. Nada tem dessa objetividade dos Evangelhos em sua história, doutrina e interpretação da morte do Salvador. ‘Cristo morreu SEGUNDO AS ESCRITURAS’ — eis o evangelho genuíno, não segundo o exagero e exploração de elementos da história que as Escrituras não salientam fora da sua proporção veraz na narrativa”.

Além das objeções levantadas por esses dois teólogos, também desaprovo essa exploração dos sofrimentos de nosso Senhor pelo fato de termos parentesco divino com Ele (Mc 3.33-35; Rm 8.29): afinal, algum de nós que tivesse um querido familiar seu barbaramente seviciado e executado gostaria de ficar assistindo a tais cenas, ou estimulando a outros para que o façam? Creio que não.

Espero que este meu modesto artigo seja de utilidade para a reflexão sobre o assunto em mais esta Páscoa que se avizinha. E não esqueçamos de que “Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós” (1Co 5.7): portanto, é essa gloriosa Pessoa, não a data instituída pelo calendário litúrgico de Roma, que devemos focalizar.

About these ads

2 responses to “Reflexão para a Páscoa: Filmes sobre a Paixão de Cristo

  • Nelson Ávila

    Parabéns pelo texto irmão Vanderson, faz jus ao “Polemista Reformado”. Tenho alguns pequenos problemas com ele, mas há muita coisa boa que se pode retirar daqui. Não desprezo totalmente filmes sobre Jesus (apesar de muita coisa neles estar divorciada das Escrituras ou influenciada por escritos apócrifos); já retirei coisas interessantes de alguns destes filmes. Todavia, desprezo a prática pragmática de alguns em transformar igrejas em cinemas. De qualquer forma, Deus o abençoe irmão Vanderson!
    Abraços…

    • Vanderson M. da Silva

      Obrigado pela participação aqui no meu blog, Irmão Nelson. Deus o abençoe também! Uma outra coisa que me faz ser contra esses filmes é por entender que eles não produzem real edificação para o povo de Deus. Muitos crentes (não todos, claro) veem tais produções claramente no intuito de satisfazer a imaginação e a curiosidade ociosa, o que entendo ser insultante à divina Pessoa em questão.

      Esqueci de mencionar aí no texto que Charles Terpstra, já falecido, foi ministro da Igreja Protestante Reformada dos EUA (PRCA) durante a segunda metade do século passado e até o início da década de 2000.

      Outro abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 354 outros seguidores

%d blogueiros gostam disto: